André Hidalgo é jornalista, mas em seu sangue correm tecido e criação. Há 21 anos ele está à frente da Casa de Criadores, que nasceu como um movimento para lançar estilistas e inovar a moda nacional e acabou se transformando em uma das principais referências quando o assunto é apresentar designers de roupas. Hidalgo é do tipo curioso e incansável: gosta de descobrir novidades e apostar em talentos.

A top Thairine Garcia fechou o desfile da Sou de Algodão com um modelo assinado pelo designer Alex Kazuo. (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite/Site Elle Brasil)

Quando ainda trabalhava na Folha de S. Paulo, começou a notar o surgimento de novos estilistas. Como escrevia sobre estilo e vida noturna, na própria noite encontrou muitas tendências curiosas, que resultaram, mais tarde, no boom da moda paulistana – e que ele ajudou a revelar.

1997

“Havia um grupo muito interessante de jovens surgindo no cenário, entre eles Alexandre Herchcovitch e Lorenzo Merlino, e que estava mudando a cara da moda brasileira. Até então, era tudo muito baseado em cópia do que vinha de fora, o que dava o maior trabalho e custava um bocado, porque não havia internet, então as pessoas viajavam, compravam peças de marcas renomadas, traziam para o Brasil e desmontavam para poder reproduzi-las”, conta.

A melhor parte é que esses novatos que Hidalgo encontrava nas ruas e nas festas tinham todos uma coisa em comum: a ideia de ter uma moda autoral, brasileira de fato, feita aqui, com criatividade, e isso lhe chamou a atenção. “Era interessante porque eles faziam roupas diferentes para uso próprio, para amigos, para dançar e sair na noite. Eles não eram bem um movimento, mas começava a nascer uma tendência de moda nacional”.

Na ânsia de ajudar a dar mais visibilidade a essas criações, Hidalgo deu a ideia a alguns criadores que fizessem um evento para mostrar o trabalho à imprensa de moda, que também estava ganhando força naquele momento no país, com alguns nomes já muito reconhecidos, como Regina Guerreiro e Glória Kalil, e os que despontavam, Lilian Pacce e Érika Palomino, entre outros. O jornalismo de moda da época já viajava para cobrir temporadas internacionais, então devia ver o que estava acontecendo também em solo nacional.

“Percebi que havia espaço para fazer algo por aqui também. Os estilistas me pediram para criar um evento, e eu topei. Fizemos uma primeira edição super sem estrutura, em maio de 1997. À época, o nome era Semana de Moda, uns três anos depois mudou para Casa de Criadores”.

Com ou sem estrutura, o que importa é que deu certo. Desde 1997, a Casa de Criadores realiza duas temporadas anuais para apresentar novos designers ao mercado de moda, desfilando suas criações e mostrando suas ideias para o setor.

“O desfile é uma coisa muito envolvente. Tem todo um clima, as luzes, as modelos, as peças. É quase um show, e uma ferramenta de marketing incrível”.

Tudo é fornecido pelo evento: modelos, maquiagem, local, assessoria de imprensa, convites etc. Os estilistas selecionados e os convidados entram apenas com a coleção, ou seja, as peças que serão apresentadas.

Com essa organização e o desejo de lançar nomes escondidos em cidades e estados por todo o país, a Casa de Criadores é um sucesso total. Hidalgo conta que, no ano passado, eles tiveram que escolher 2 candidatos entre 500 inscrições, trabalho que demandou muita responsabilidade e boa vontade, sobretudo da equipe avaliadora – jornalistas, estilistas e pessoas ligadas à moda que são convidados por ele.

Colômbia

Nos últimos seis anos, a convite da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) e apoio da Texbrasil (Programa de Internacionalização da Indústria Têxtil e de Moda Brasileira), a Casa de Criadores leva dois estilistas de seu time para a Colombiatex, feira mundialmente conhecida do setor têxtil dedicada a materiais e equipamentos. O evento, que acontece em Medellín, recebe cerca de 510 expositores de vários países, além de aproximadamente 1.800 compradores de 60 nacionalidades diferentes (fora os locais), de acordo com dados da edição 2017.

Futuro

“Nós temos que pensar no futuro de forma geral: do evento e da moda, e o tema sustentabilidade está atrelado a isso. São várias frentes que precisam ser estimuladas nos novos estilistas, business é uma delas, mas o principal, sob o nosso olhar, é fomentar pesquisa em novas tecnologias e métodos de desenvolver produtos voltados para questões sustentáveis”.

Hidalgo faz uma comparação de como a sustentabilidade era vista lá atrás e hoje, em se tratando de moda. E ele dá um exemplo que muitos ainda têm como referência. É como se fosse, no passado, sinônimo dos termos bicho grilo ou riponga, ou seja, pessoas que vivem em comunidades alternativas, usam roupas coloridas e amassadas, e adotam estilos e comportamentos semelhantes aos dos hippies dos anos 1960 e 1970. “Não tem nada a ver com bicho grilo, tem a ver com o trabalhador que produz moda não ser explorado”, explica.

Sou de Algodão

Desde seu início, a Casa de Criadores acontece duas vezes ao ano, maio/junho e outubro/novembro. Em 2018 será diferente. Hidalgo, que é fundador e diretor criativo do evento, decidiu adiar a 43ª edição do primeiro semestre para julho (de 23 a 27) por conta da Copa do Mundo e devido a uma nova parceria, com o Movimento Sou de Algodão, da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), que incentiva o uso da fibra na moda. Juntos, Casa de Criadores e Sou de Algodão, farão um desfile contemplando o tecido como matéria-prima usada pelos participantes.

Hidalgo, que vinha trocando ideias com o Sou de Algodão há cerca de seis meses, está muito entusiasmado com o encontro, sobretudo com a possibilidade de aliar-se a pessoas que, além de priorizarem matéria-prima nacional na produção de roupas com o uso de uma fibra natural, ainda têm know-how em todos os aspectos de sustentabilidade.

Ele conta que começou a entender melhor o algodão, a certificação ABR (Algodão Brasileiro Responsável), o tecido em si e seus benefícios, como o fato de ele “nascer” de uma fibra natural, ser bom para a pele, adaptável à temperatura do corpo, fácil para modelar e costurar, entre outras coisas. Mas ressalta que o fator sustentável da produção foi decisivo.

Com tudo o que foi dito e a parceria entre a Casa de Criadores e o Sou de Algodão, tente imaginar o que será a edição deste ano. Um evento com as caraterísticas de lançar trabalhos autorais e inovadores aliado ao pensamento no algodão como matéria-prima só pode dar certo.

“Eu achei o movimento incrível, daí nasceu essa parceria. É, sem dúvida, um assunto espinhoso, porque, em prol da sustentabilidade, eles mostram como a moda impacta a qualidade do ambiente e, consequentemente, a vida das pessoas. Nós, que estamos no fim da cadeia produtiva, normalmente não sabemos como tal produto chegou até nós, e é preciso ter certeza de que foi por caminhos sustentáveis”.

Ele avisa que as primeiras realizações desse trabalho com o Sou de Algodão vão aparecer já na 43ª edição da Casa de Criadores, em julho, mas destaca que muitas outras surpresas estão preparadas para frente.

Vamos aguardar!

Para participar das próximas edições da Casa de Criadores, basta acessar o site casadecriadores.com.br