O desfile do Movimento Sou de Algodão na Casa de Criadores coloca o artesanato brasileiro – e o trabalho de dezenas de mulheres – no holofote.

Por muito tempo, o artesanato regional foi visto como uma arte menor. Talvez pela abundância de oferta ou por uma síndrome de vira-lata, que fazia com que fechássemos os olhos para o que é nosso e prestigiássemos o que é de fora – a alta-costura francesa, por exemplo.

Felizmente, esse cenário começou a mudar, no embalo de marcas como Martha Medeiros, que colocou a renda do Nordeste no mesmo patamar da francesa, ao injetar design de moda na fórmula das mulheres alagoanas.

O primeiro desfile do Movimento Sou de Algodão na Casa de Criadores é mais um marco nessa mudança de mindset. “Graças à parceria com a Abrapa, estamos tendo essa oportunidade”, diz a artesã Petrúcia Lopes, que faz parte da Inbordal, cooperativa que reúne 30 mulheres de Alagoas em torno da renda filé, e ajudou a dar vida ao look desfilado pelo estilista Weider Silveiro. “O processo de criação foi conjunto, pois o Weider estava de alma aberta”, afirma ela sobre a produção que tem tudo para redefinir o dresscode de festa, tamanho grau de sofisticação. “É um tipo de bordado único, pois utilizamos a técnica da rede de pesca para fazer a base do nosso trabalho. Quando a rede está pronta, bordamos em cima dela, criando o tecido”, explica Petrúcia.

Outro que abraçou o artesanato e incrementou a própria moda com bordados 100% algodão feitos à mão pelas mulheres da Cooperativa Bordana foi o estilista Isaac Silva. “Sempre tive o sonho de trabalhar com os bordados que elas fazem. Foi uma troca maravilhosa, e foi só o começo. No desfile que vou fazer em Paris, vou usar muito o axé delas”, antecipa ele, que praticamente só usa algodão em suas criações (80% da produção), e lembra que é preciso valorizar cada vez mais o que é nosso: “o algodão é nossa matéria-prima mais nobre, o futuro do alto padrão têxtil, e o trabalho manual é minucioso, leva tempo, demanda atenção”.

Unir as duas pontas da cadeia – estilistas e bordadeiras – é fazer, portanto, com que todos saiam ganhando. “Moda e artesanato ganham. É uma troca fundamental: entramos com a visão de design e as bordadeiras com esse ofício maravilhoso. É uma chance de construir algo contemporâneo e, ao mesmo tempo, precioso, minucioso, algo que só o feito à mão traz”, avalia Weider Silveiro, que ajudou a desmistificar outro tabu: o de que artesanato é sempre maximalista. “Um dos grandes desafios era mostrar que é possível usar o artesanal numa estética minimal, que é o DNA da minha marca, não apenas em produções barrocas”.

Mais um motivo para investir no duo? Ele é uma grande forma de empoderamento. “O fazer manual é uma tradição milenar, um patrimônio cultural que, por muito tempo, em um contexto machista, não era visto como um trabalho, uma vez que as mulheres ‘tinham’ que ser prendadas. Vejo com muito entusiasmo e esperança que finalmente o artesanato esteja sendo valorizado como expressão de arte e se torne instrumento de desenvolvimento socioeconômico, além de promover a autonomia de grupos de artesãos e o empoderamento social e econômico das mulheres”, afirma Celma Grace de Oliveira, gestora da Bordana, que atua com as moradoras do Conjunto Caiçara, bairro da região leste de Goiânia – ao todo são 25 mulheres entre bordadeiras, costureiras e ilustradoras.

Por último, mas não menos importante, a tendência mostrada na Casa de Criadores anda de mãos dadas com outra vertente da moda e do nosso tempo: a do slow fashion, contraposição ao fast fashion que tomou o mundo no começo do século 21. “Sustentabilidade social e ambiental está no nosso DNA. Fazer uma moda mais sustentável e minimalista é nosso objetivo”, destaca Celma. “O mundo não suporta mais tanto consumismo e tanta ganância”