Quando o assunto é decoração, a ideia que logo nos vem à cabeça são palavras como reforma, troca, compras e remoção. Mas, nos dias de hoje, o simples descarte está quase fora de moda, pois o que viraria lixo pode receber uma nova concepção e ganhar sobrevida. É o que muitos designers de interiores e seus clientes privilegiam quando vão criar ambientes.

A profissão de design de interiores existe há mais ou menos cem anos. Nasceu como a arte de decorar espaços, sobretudo residências e escritórios, mas rapidamente evoluiu para um mercado altamente especializado, em que o pensamento do profissional desta área vai muito além de simplesmente escolher onde colocar um quadro ou um vaso, mas de onde e de que forma essa combinação entre ambiente e objetos pode constituir lugares que proporcionem bem-estar, conforto, lazer e até criatividade. É a arte de melhorar o interior e/ou o exterior a fim de oferecer locais mais saudáveis e esteticamente agradáveis.

Marcel Steiner, designer de interiores e mestre em História da Arquitetura pela FAU-USP, admite que o trabalho de decoração de interiores é algo que, por si só, não é muito sustentável, já que a “ideia” é pegar um monte de coisas, descartá-las e comprar novas. Mas alerta que há como contornar. “Quanto mais objetos, móveis e quaisquer itens antigos do imóvel você preservar, menor será o impacto ambiental”.

Acostumado a criar para clientes exigentes, que privilegiam bom gosto, qualidade e exclusividade, ele diz que o verdadeiro luxo está em materiais confortáveis que sugiram uma aparência única, feita para determinado local ou cliente. Ele conta que uma das coisas mais chiques que já viu foi em um hotel no México. “A roupa de cama era toda feita de um algodão produzido lá na cidade mesmo, em Oaxaca, e o tecido era muito macio e, ao mesmo tempo, muito grosso. Nunca tinha visto nada igual. Quem fazia as peças era uma senhora que morava na cidade e produzia com exclusividade para esse hotel. Ou seja, um produto local, tradicional e feito à mão. Esse é o verdadeiro luxo hoje em dia, ter um produto de fibra natural, feito sob medida e que não seja possível encontrar em lojas de departamento, por exemplo”.

Ele cita que, na decoração, o algodão é mais usado em quartos, salas de banho e de jantar. Mas acrescenta que o tecido é também uma opção interessante na aplicação de revestimento de sofás, além de tapeçaria.

Sobre o movimento Sou de Algodão, da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), que fomenta o uso da fibra na moda, o que inclui o segmento cama, mesa e banho, Steiner, apesar de tê-lo conhecido por meio da reportagem, demostrou-se entusiasta. “Eu não conhecia, mas acho bem legal. Muito melhor usarmos produto nacional. Sempre prefiro ao importado. É muito importante sabermos a origem do produto que especificamos, conhecer a cadeia produtiva e ter a certeza de que respeita o trabalhador”.

Como, de uma forma geral, os clientes estão mais preocupados com conforto e menos com o material que vai ser usado, além de buscarem mais o resultado tátil e estético, é essencial identificar a origem do que se usa. Ele aconselha privilegiar fornecedores locais, e sempre ter conhecimento da mão de obra, para constatar que ela seja correta, sem exploração infantil ou de trabalho análogo à escravidão.

“Muita gente diz que a casa é sustentável, mas mandou buscar mármore importado. Eu, por exemplo, só uso pedra nacional. Uma casa com mármore importado é uma aberração sustentável”, argumenta.

 

Dicas de sustentabilidade na decoração:

Steiner tem muita experiência e valoriza a origem do produto que usa para compor seus espaços, e deixa dicas em prol de ações mais sustentáveis, portanto, lembre-se delas na próxima vez em que for pensar em decoração:

– Quer ser chique, então compre o melhor algodão, o que inclui conhecer sua procedência, e mande fazer seus próprios lençóis, preferencialmente, à mão;

– Preserve móveis antigos e os renove com designers que atuem com materiais ecológicos, evitando ao máximo o descarte desnecessário;

– Sempre que possível, mantenha em sua forma natural árvores e vegetação, além de necessárias, elas embelezam e proporcionam frescor e sombra naturais;

– Procure comprar tudo sem embalagem, sempre a granel, assim você usa o produto e não gera lixo;

– Móveis flexíveis são opções de economia e evitam desperdício. A mesa para quatro pessoas pode se transformar numa de seis ou dez lugares, tranquilamente, e ainda vai chamar a atenção por sua praticidade e por valorizar espaços, quando acomodada em seu formato menor;

– Tecidos e revestimentos usados, em vez de descartados em lixeiras, podem ser doados para upcycling, ou mesmo ser usados como “pinceladas” decorativas. Uma opção é fixar pedaços geometricamente interessantes em móveis e paredes, dando um aspecto novo, com formas e texturas;

– Reaproveitar coisas é sempre uma ótima alternativa. Dê a peças antigas uma nova cara. Por exemplo, se um móvel não está bonito, é possível pintar de branco ou trocar o tecido. Quase tudo dá para ser reaproveitado.

O algodão está presente nos espaços e, muitas vezes, não nos damos conta. É possível valorizar a origem, os materiais e o profissional brasileiro, e ser chique. Este é um exemplo de como tornar sustentável a decoração da sua casa.