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blog / “Precisamos entender a pauta da diversidade com vários recortes”. Rafael Silvério explica por que inclusão não pode ser um termo raso

moda & estilo | 11 de novembro de 2021 | 0

Criador da marca Silvério, o estilista também se dedica a projetos que estruturam carreiras de profissionais racializados, como o Sankofa. E ele tem muito a dizer sobre diversidade.  

 

“É preciso criar estratégias para não apenas implementar pessoas racializadas nesses espaços, mas acompanhar as condições para um plano de carreira a longo prazo”. Assim, Rafael Silvério define o processo de diversificação na moda. Estilista, criativo e empreendedor, suas ações nasceram a partir de dúvidas e o convívio com a ansiedade, que explode em seu processo criativo.  

Batemos um papo sobre presente, passado e futuro da moda e de que maneira projetos como o Sankofa têm possibilitado transformações profundas no universo fashion brasileiro.  

Criação Rafael Silvério

SdA – Sua estreia foi na Casa de Criadores, em 2019, certo? De lá pra cá, o que tem mudado no seu processo criativo e no modo com que vê a moda brasileira?  

RS – Sempre sonhei com aquele espaço, mas, no final daquele ano, descobri um câncer ósseo e isso me fez ter que desacelerar. Depois do assassinato de George Floyd, consegui vislumbrar o racismo na moda, de maneira que respondesse às minhas perguntas como: qual é o real motivo de não alcançar emprego formal dentro do mercado? A Silvério sempre foi meu maior empreendimento de sobrevivência e aplicabilidade de tudo que eu acredito como moda. Outra pergunta sanada foi: o que há por trás das baixas performances comerciais de minhas criações ou pouco alcance midiático, ou entendimento conceitual das minhas ideias.  

Minhas estratégias passaram a ser de estudo e hackeamento de mercado, contando com o racismo estrutural como parte da engrenagem. E como usar minha voz para abrir espaço, a fim de convergir em ferramentas oportunas, em prol não apenas de mim, mas do coletivo? Meu processo criativo vem sendo no coletivo e no âmbito mais vertical. 

SdA – O Dia da Consciência Negra é também o aniversário da VAMO (Vetor Afro-Indígena na Moda). Como você avalia o impacto deste projeto depois de um ano? 

RS – A VAMO me possibilitou exercer uma liderança incubada em mim há muitos anos. Também oportunizou, a alguns membros das startups, reais oportunidades dentro do mercado, pelas fendas que foram criadas, com aliados brancos que entenderam seus privilégios e convergiram em responsabilidades e ações reparatórias. É compartilhar com os outros guardiões e criar estratégias para não apenas implementar pessoas racializadas nesses espaços, mas acompanhar as condições para um plano de carreira a longo prazo.  

SdA – Como foi o processo de nascimento do Sankofa a partir disso?  

Tudo verte a partir do convite da Natasha Soares (fundadora do movimento Pretos na Moda), responsável pelo tratado de proporcionalidade de 2019, estabelecendo que nenhuma marca do line-up da SPFW pode participar sem ter um casting que mensure 50% de pessoas racializadas – pretos, pardos indígenas e orientais. Ela me chamou para discutir qual a minha percepção sobre o evento e eu disse que o próximo passo seria colocar designers com ferramentas competitivas para que conseguissem ser vetores de transformação dentro da vitrine do desfle. Formamos o projeto no final de 2020, apresentamos ao Paulo Borges, e tivemos a resposta positiva no dia 30 de dezembro de 2020. Começamos janeiro já desenhando o processo de seleção e entendendo como se dariam as 3 fases evolutivas a que se submeteriam todas as marcas, a minha, inclusive. 

Criação Rafael Silvério

SdA – Você me parece um profissional super inquieto (visto a ansiedade e o burnout por quais passou). Essa motivação para criação de ações de impacto está atrelada à sua energia de criação? 

RS – Sempre fui muito propositivo, então meu enfoque é sempre na solução. Entendo que meu papel é de criativo para além do design. Entender o meu real propósito e quais as melhores ferramentas, faz com que eu seja polivalente. Aprendi a respeitar o meu tempo, ainda sou uma pessoa ansiosa, mas sei lidar melhor comigo mesmo e já consigo ensinar aos outros como fazem isso de maneira 360. Apenas sou um pedaço de todos os projetos aos quais vocês me veem atrelado, acredito muito que operar no coletivo seja a única maneira que possibilita regenerar a cadeia que adoeceu pelo egoísmo de muitos. Esperei anos para que o mundo acolhesse o que eu tinha para falar. E espero que ele continue se abrindo para tantos outros que têm uma criação distinta do que está colocado, pois o desejo humano é mutável e isso é o maior bem, a inconstância. 

SdA – Como você vê a questão da diversidade daqui 10 anos no Brasil? Acha que teremos avançado nessa pauta, no universo da moda? 

Precisamos entender a pauta da diversidade como vários recortes. Há lutas que têm seus pontos em comuns, mas há suas especificidades. Colocar todos os minorizados dentro de um mesmo lugar acaba apagando justamente suas diferenças. Creio que estamos ansiosos por outras vozes que possam levar a debate público os lugares que sempre foram negados. Espero que a moda consiga tratar de forma profunda essas transformações e trabalhe em metas para o pertencimento, fortalecendo as lideranças e fomentando plano de carreira para gestores sensíveis que possam tangibilizar em números em ações de impacto positivo. 

SdA – Quais os planos para o futuro do Sankofa? 

Queremos entregar as marcas que estão conosco para o mercado depois do processo do Sankofa, de maneira que possamos mediar os avanços dentro de cinco anos. Tudo para promover a criação de novos líderes e posições dentro do mercado, o suficiente para que consigam pressionar para a transformação continuar a evoluir de forma constante. Por hora é o meu desejo para 2022. O futuro depende muito de que o mercado absorva o projeto, a fim de investir para a prospecção de uma segunda turma de marcas. Assim, conseguiremos evoluir massivamente. 

 

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