A indústria da moda se mostra cada vez mais atenta a questões relacionadas à sustentabilidade e, desta forma, tem protagonizado diversas iniciativas de conscientização quanto ao uso de recursos naturais. Destacam-se, porém, medidas que visam a economia de um bem inestimável a todos: os recursos hídricos.

Visando nortear a conscientização sobre o consumo da água, a Vicunha Têxtil, junto ao Movimento ECOERA, calculou uma média de uso de recursos hídricos em cada momento da produção de um item presente no guarda-roupas de todo brasileiro: a calça jeans.

A pesquisa divide as fases da produção em seis, sendo elas: plantio, tecelagem, confecção, varejo, consumidor e pós-consumo. O uso de água em cada etapa é apontado por três indicadores: pega hídrica verde (água de chuva usada), cinza (água de diluição, necessária para dissolução de poluentes) e azul (água captada que não é devolvida).

O estudo constatou dados muito relevantes de cada etapa e a média em litros que uma calça jeans consome em toda sua vida útil. São 5.196 litros divididos em todas as fases de sua produção.

A etapa de cultivo utiliza cerca de 4.247 litros de água, sendo 48% de pegada cinza, 2% azul e 50% verde. É o segundo processo com maior uso de recursos hídricos, mas que acaba não sendo tão invasivo ao meio ambiente por usar alta dosagem de água de chuva.

O segundo estágio com maior quantidade de água consumida é, surpreendentemente, realizado pelo consumidor final, que gasta, em média, 460 litros de água na manutenção (lavagem) do jeans até o final da sua vida útil. A pegada hídrica desta etapa é 100% azul.

A etapa de tecelagem utiliza cerca de 127 litros de água, sendo 96% pegada cinza e 4% azul. A etapa de confecção e lavanderia consome 362 litros, sendo 3% azul e 97% cinza. As etapas de varejo e pós-consumo não possuem uso expressivo de água.

Estes dados expõem o quanto cada etapa da cadeia produtiva carrega responsabilidade no consumo de água e demonstram a essência do estudo: a conscientização.

Chiara Gadaleta, uma das responsáveis pelo movimento, relata a importância de cada envolvido no processo de produção saber seu papel. “A responsabilidade no uso consciente da água precisa ser compartilhada entre todos os envolvidos na cadeia, desde o plantio até o consumidor final. Quando todos estiverem conscientes dos processos e cientes de seus papéis, vamos poder falar sobre a redução do uso da água”.

Após o estudo da Pegada Hídrica da calca jeans, surgiu o movimento A Moda pela Água, plataforma cuja parte fundamental são as empresas que fazem parte dele. São elas: Abit, Damyller, Ecoera, Farm, Grupo Lunelli, Marisa, Vicunha Têxtil e Sou de Algodão. São as marcas guardiãs da água na moda, empresas que abriram as agendas para discutir melhores práticas da indústria da moda no Brasil.

Irrigado majoritariamente por recursos hídricos provenientes da pegada verde, o algodão é a parte mais representativa da composição do tecido jeans e, por toda a importância do cultivo do algodão sustentável, o Movimento Sou de Algodão faz parte das empresas guardiãs da água na moda.

“Cada uma, à sua maneira, está empenhada em discutir o uso de água em seus projetos e produtos. A Vicunha foi pioneira com a pegada hídrica. A Marisa acaba de lançar uma linha de jeans com a chancela “A Moda pela Água”. O re-Farm jeans está cada vez mais presente no mix da Farm. Todas as guardiãs estão empenhadas em passar a mensagem da sustentabilidade e vamos ver projetos interessantes ao longo deste ano.”

Chiara Gadaleta expressa que as medidas tomadas pelas guardiãs da água são os primeiros passos de uma emergente necessidade do mercado: questionar ações internas para que, no futuro, possam ser estabelecidas metas de redução do uso de água.

A indústria têxtil encabeça todo esse processo, mas não é a única que faz parte dele. Os produtores, estilistas e consumidores também são fundamentais nisso tudo.

Com o ideal de promover debates entre os diversos participantes deste ciclo, o movimento incentiva que o consumidor final se torne também um guardião da moda, preenchendo um formulário em seu site. Desta forma é criada uma rede de relacionamento que contém, em sua essência, debates sobre o uso consciente de recursos hídricos.

“Em cada etapa do ciclo de vida do jeans, nossa peça protagonista, existem formas de economizar no uso e no impacto socioambiental. As lavanderias estão cada vez mais atentas nas questões do circuito fechado, sem desperdício, por exemplo. Refletir na hora das lavagens domésticas e repetir looks antes de lavar são pontos de atenção”, comenta Chiara.

Chiara Gadaleta expressa alegria nos resultados apresentados até agora pelo movimento e já imagina novas iniciativas que podem ser tomadas para a conscientização do uso do recurso. Essas e diversas outras informações sobre a iniciativa serão apresentadas no “Summit da Água na Moda”, evento ainda sem data definida que irá reunir as empresas Guardiãs, ONGs, Imprensa e FOs.