Afinal, como se mede a qualidade do algodão? E a fibra brasileira, onde está nesta conversa?
30 de abril de 2026 | 0
Se você gosta minimamente de moda, já deve ter ouvido falar sobre algodão egípcio ou pima. Esses nomes costumam aparecer em lençois mais sofisticados, camisarias de alto padrão e etiquetas que prometem maciez quase cinematográfica. E não por acaso: eles são associados às fibras longas, mais finas, sedosas e usadas em nichos premium.
Mas isso abre uma pergunta curiosa. Afinal, como se mede a qualidade do algodão? É com fita métrica? De certa forma, sim. No algodão, o comprimento da fibra importa – e muito -, mas ele não anda sozinho. Resistência, uniformidade, finura, cor e nível de impurezas também entram nessa conta. É esse conjunto que define se aquela pluma vai render um fio mais fino, mais resistente, mais estável na indústria e, lá na ponta, um tecido mais agradável de vestir.
As fibras longas e extra longas pertencem à espécie Gossypium barbadense cultivada no Vale do Nilo (Egito), com clima, solo e irrigação muito específicos. Já o pima foi desenvolvido a partir de variedades egípcias, mas é produzido principalmente nos Estados Unidos e Peru. Aqui no Brasil, a produção vem da espécie Gossypium hirsutum, conhecida no mundo como “Upland”.
No algodão, poucos milímetros importam. As fibras médias ficam ali entre 26 e 28 mm, as longas avançam de 28 a 34 mm e, acima disso, entra o território premium das extra longas. O Brasil se posiciona justamente onde o mercado mais precisa, com média entre 28 e 30 mm. Mas o detalhe é o que chama a atenção: mesmo nessa faixa, a qualidade tem sido tão alta, com padrão e rastreabilidade, que o algodão brasileiro vem ganhando holofote no mundo. Uma dessas histórias começa em Minas Gerais.
Estande mostra rastreabilidade do algodão brasileiro na Première Vision, em Paris (2026) | Foto: divulgação
De Minas para o mundo
Décio Bruxel é a segunda geração de produtores de algodão e atualmente é diretor-executivo da DB Agricultura e Pecuária. O grupo tem sede em Patos de Minas (MG), mas as áreas de cultivo ficam em São Romão, no noroeste mineiro. Toda a produção tem certificação ABR (Algodão Brasileiro Responsável) e licenciamento BCI (Better Cotton Initiative).
Segundo Décio, a última safra entregou média de comprimento UHML de 30,14 mm, com 99,8% da produção acima de 28,2 mm, além de
resistência média de 31,2 g/tex e mais de 85% das fibras dentro da faixa ideal de micronaire para exportação. Ele destaca ainda que os resultados favoreceram as negociações e ampliaram as oportunidades comerciais da fibra produzida nas propriedades. “A minha produção nesta safra foi bastante equilibrada, com destaque para a excelente qualidade das fibras, atendendo plenamente às exigências do mercado têxtil, tanto nacional quanto internacional”.
Antes de seguir, vale traduzir esse vocabulário.
UHML (Upper Half Mean Length) é a medida que indica o comprimento das fibras mais longas do lote. Resistência mostra o quanto aquela fibra aguenta tração sem romper. Micronaire é um índice combinado de finura e maturidade. Não é exagero dizer que esses números funcionam como um boletim técnico da pluma e esse boletim é lido com atenção milimétrica.
Tá, mas passou no padrão de qualidade da indústria?
Anicésio Resende, da Amipa, avaliando qualidade da fibra em laboratório | Foto: arquivo pessoal
Para entender, vale entrar no laboratório. E quem ajuda a destrinchar isso é Anicézio Resende, gerente de laboratório do Minas Cotton, da Amipa (Associação Mineira dos Produtores de Algodão), que trabalha há mais de 30 anos com classificação tecnológica de fibra de algodão.
A qualidade da pluma é medida por um sistema chamado HVI, sigla para High Volume Instrument. Em outras palavras, é um raio-x da pluma. E é a partir desse raio-x que o mercado classifica o algodão.
“Basicamente, o HVI analisa três grandes blocos”, explica Anicézio. “O primeiro é o Micronaire, que mede a finura e a maturidade da fibra. O segundo é o módulo de cor e impurezas. E o terceiro bloco é o de comprimento e resistência”.
Essa régua técnica ajuda a explicar por que o algodão brasileiro ganhou respeito no mercado internacional. Não é só porque produz muito, mas porque hoje mede, padroniza e entrega com previsibilidade. “Antigamente, o Brasil era visto como um produtor que entregava volume, mas com muita impureza ou falta de padronização. Hoje, com os laboratórios de HVI e a classificação oficial, o comprador sabe exatamente o que está comprando antes mesmo do fardo chegar”.
É aí que o fio da história puxa outro personagem.
Cleber Rezende Martins, gerente de fiação da Companhia Industrial Cataguases, olha para essa qualidade pelo lado de dentro da fábrica. E a lógica dele é muito direta: a indústria gosta de previsibilidade.
Ele explica que a fibra longa é praticamente indispensável quando a meta é produzir fios muito finos, usados em camisarias de luxo e artigos mais sofisticados. Isso acontece porque essas fibras têm comprimento, finura e resistência que dão segurança operacional à fiação. Quando se tenta fazer esse mesmo fio com uma fibra média, a chance de rompimento cresce.
Só que o algodão brasileiro tem outro trunfo. Segundo Cleber, ele atende perfeitamente uma faixa enorme de produtos, especialmente do NE 40 penteado para baixo. Traduzindo para quem não vive dentro da fiação: é um algodão que veste o dia a dia de alta qualidade. Vai bem em camisetas, jeans, toalhas, lençois, malhas, estamparia e uma série de aplicações em que regularidade e eficiência contam tanto quanto a nobreza.
E isso tem impacto concreto na indústria. Quando os laboratórios falam a mesma língua e entregam dados confiáveis, a máquina pode ser regulada com mais precisão, há menos quebra de fio e menos prejuízo no processo.
“A padronização foi essencial para a alavancagem e para mostrar a qualidade do algodão brasileiro no mercado externo, afirma.
Algodão Brasileiro, conhecido como “Upland”. | Foto: divulgação
Mas e a fibra longa brasileira, existe?
Existe. Até porque, mercado é mercado. Onde há demanda, tem sempre alguém buscando ofertar. E foi assim que o Brasil começou a abrir espaço também para a produção de uma fibra nacional mais longa. E para isso contou com a ajuda da Embrapa.
Em 2025, a entidade lançou a cultivar “BRS 700FL B3RF”, desenvolvida com foco em fibras longas e extra longas em ambiente tropical. Essa variedade alcança comprimento médio de 33,5 mm, podendo superar 34 mm em algumas condições. No passado, o Brasil já tentou o cultivo da espécie barbadense, mas um dos problemas foi a baixa produtividade, devido ao nosso clima. Pensando nisso, essa cultivar, que eu estou chamando de “fibra longa BR”, promete mais volume por hectare (acima de 4.500 kg/ha).
E se você está se perguntando se a ideia é ter competitividade com o pima e o egípcio, a resposta é sim, mas ainda é cedo para isso.
O pesquisador, João Paulo Saraiva Morais, explica que o movimento é pequeno, mas estratégico como alternativa nacional para um segmento hoje muito abastecido por material importado.
“A fibra longa é o que a gente chama de especialidade. Não se trata de substituir a força brasileira na fibra média, mas de abrir um corredor novo, mais sofisticado e de maior valor agregado”, ressalta.
Ele também cita um projeto em andamento de identificação geográfica chamado de “O algodão do Ceará”, um sinal de que o país começa a olhar não apenas para volume e qualidade, mas também para identidade de origem e nichos mais sofisticados.
E para fechar a minha conversa com o João, ele revela um bastidor curioso. Segundo ele, já existem estudos com material ainda mais longo, pensado para competir de forma mais próxima ao pima. Nas conversas internas, até surgiu um apelido carinhoso de “Tupima”, em referência ao povo indígena brasileiro “Tupi”, associado ao nome pima (que vem de uma tribo indígena peruana). Mas depois de algumas ressalvas jurídicas, diz ele aos risos, a turma passou a chamar apenas de “algodão Tupi”.
Mas essa história não fica só na pesquisa. Já tem gente plantando no campo. Ainda de forma tímida, é verdade, mas com produtores e grandes grupos dando os primeiros passos nesse novo capítulo da fibra longa BR.
É o caso da SLC Agrícola, uma das maiores produtoras do país. Edson Lima, coordenador administrativo de classificação de algodão da empresa, explica que o foco está em oferecer para a indústria um algodão confiável e eficiente.
“A SLC busca sempre a excelência na qualidade da fibra. A gente foca muito na padronização, em levar para a indústria um algodão que ela possa confiar”.
Fibras mais longas de algodão são destinadas às fiações e abastecem a indústria têxtil | Foto: Abrapa
Mas vale dizer: se depender só da fibra longa a gente não veste todo mundo
Essa frase resume bem o dilema. A fibra longa é mais nobre? Sim. Mas ela representa uma fatia pequena da oferta mundial. A produção global de fibra longa gira em torno de 3%, enquanto as fibras médias e similares respondem por cerca de 97%. Ou seja, não existe escala suficiente para vestir o planeta inteiro só com esse algodão premium.
É por isso que o algodão brasileiro ocupa um lugar tão estratégico. Foi com qualidade consistente, padronização, certificação e escala para atender a demanda global, que conquistou o terceiro lugar na produção e o primeiro nas exportações.
No varejo e na moda, essa história ganha outro nome: rastreabilidade. O movimento Sou de Algodão, lançado pela Abrapa em 2016, nasceu justamente para aproximar o campo da indústria, das marcas e do consumidor, valorizando a fibra natural, o consumo responsável e o algodão nacional.
Fardo de algodão certificado pelo programa ABR (Algodão Brasileiro Responsável) | Foto: divulgação
Dentro dessa estratégia, o programa SouABR permite rastrear a jornada da peça por meio de QR Code, da fazenda ao guarda-roupa. Hoje, cerca de 80% do algodão brasileiro já sai do campo com certificação ABR, reconhecida internacionalmente via Better Cotton, o que pesa cada vez mais nas exigências de mercados europeus e asiáticos. Qualidade também é processo, regularidade, classificação confiável, boas práticas socioambientais e transparência sobre a origem.
Mas e aquela pergunta lá do começo? Dá pra medir o algodão? Sim. Mas quem gosta de moda talvez nem queira (e nem precise) saber o que é uma UHML. Mas essa história é mais importante do que a gente imagina.
O que eu quero dizer é que a qualidade não está só nos milímetros da fibra, ela é construída fio a fio, da lavoura à indústria, do laboratório à etiqueta da roupa. E por aqui o algodão brasileiro mostrou que sabe entregar, com consistência, aquilo que o mundo inteiro quer vestir.
Por Flávia Macedo, jornalista especialista em agronegócio.
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