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blog / Afinal, defensivos químicos usados na plantação passam para as roupas?

algodão & sustentabilidade | 9 de março de 2021 | 0

Essa é uma pergunta que muita gente se faz, questionando, inclusive, o impacto de roupas de algodão na saúde. Fomos atrás de especialistas que tiraram a dúvida.   

“Não use algodão, os defensivos químicos passam para as roupas”. Se você acompanha discussões sobre moda e sustentabilidade, é provável que já tenha ouvido afirmações desse tipo. Porém, em uma era onde todos nós podemos criar conteúdo na internet e dar opiniões técnicas como experts, nós alertamos: cuidado com as falsas afirmações que circulam por aí. Antes de passar uma informação à frente, é preciso ter responsabilidade e checar a veracidade. E, por isso, fomos atrás de especialistas de verdade para responder a essa questão.

O algodão responsável utiliza defensivos agrícolas?

Sim. Neste artigo, explicamos melhor as diferenças entre algodão responsável e orgânico, sendo que o último é cultivado sem a utilização dos chamados agroquímicos, porém, em pequena escala. Quando falamos em produção em larga escala, é preciso recorrer aos defensivos, pois essa tecnologia é uma das responsáveis por dar a todas as pessoas o acesso ao algodão.

Em um país de clima tropical como o Brasil, é praticamente impossível sustentar grandes plantações, como as de algodão, sem a utilização de defensivos químicos. Isso porque o clima quente e úmido é favorável à proliferação de pragas e doenças, o que colocaria em risco a produtividade, o fornecimento, os empregos e a qualidade da fibra.

É importante lembrar também que na década de 1990, um inseto chamado bicudo-do-algodoeiro foi o responsável por exterminar 80% das plantações de algodão, fazendo com que famílias produtoras perdessem tudo e com que o Brasil se tornasse o segundo maior importador de algodão. Confira a história completa AQUI.

Depois de anos de investimento em tecnologia, capacitação e ciência, foi possível reerguer o setor e fazê-lo ainda mais forte. Hoje, somos o 2º maior exportador do mundo e o maior fornecedor de algodão licenciado pela ONG suíça BCI – Better Cotton initiative.

agrotóxicos passam para as roupas?

Definitivamente, os defensivos não passam para a sua roupa

De acordo com o pesquisador Jean Louis Belot, do Instituto Mato-Grossense do Algodão, mesmo sendo uma cultura que necessita de agroquímicos, quando consideramos a produção em larga escala, o algodão é muito seguro em termos de resíduos. Isso porque, durante a pulverização, a fibra permanece protegida dentro da maçã, que é o fruto do algodoeiro em sua fase de pré-maturação.

Ainda segundo o pesquisador, na maioria dos casos, são raras as pulverizações de fungicidas no final do ciclo, quando os capulhos já estão abertos. O que pode haver são aplicações esporádicas para o bicudo-do-algodoeiro, algumas lagartas e insetos sugadores que se instalam próximos à colheita.

É preciso também mencionar que os os ingredientes ativos dos defensivos usados nas lavouras de algodão são autorizados pela ANVISA e outros órgãos públicos para uso nas produção de grãos, frutas e hortaliças. Além disso, estes produtos também são liberados para uso doméstico em hortas e jardins e ainda em campanhas de saúde pública para controle de vetores, como o mosquito da dengue.

Confira AQUI informações sobre os ingredientes ativos autorizados.

Portanto, se for detectada a presença de resíduos químicos na fibra, a mesma será insignificante e não apresentará nenhum risco.

Padrões e análises científicas atestam a segurança do algodão

Falando mais tecnicamente, Belot explica que há protocolos para a detecção de resíduos na fibra. Os padrões 100 Oeko-Tex – uma das etiquetas mais conhecidas do mundo para testes em produtos têxteis quanto à presença de substâncias nocivas –, definem níveis máximos de concentração toleráveis para diversas moléculas. Além disso, a entidade alemã Bremen Cotton Exchange realiza análises de resíduos em fibra produzida no planeta inteiro e publica os resultados no seu site.

“Nos resultados publicados por Bremen, de modo geral, quando detectadas, algumas moléculas se encontram em concentrações abaixo dos níveis máximos desejados definidos pela Oeko-Tex. Apesar de serem aplicados quando a maioria dos capulhos é aberta, poucos desfolhantes foram encontrados nesses resultados de Bremen até 1998”, explica o pesquisador.

Dentro desta perspectiva, um trabalho chinês recente (Ma et al., 2019), publicado em revista científica, foi realizado em condições controladas a campo (com colheita manual de amostras pequenas). Ele mostra que as concentrações de alguns agroquímicos detectados na fibra colhida são reduzidas significativamente após 15 dias da pulverização dos desfolhantes.

Em comparação, nas condições do Brasil central, muitas lavouras são colhidas mais de 20 dias após a pulverização de desfolhantes/maturados, o que poderia reduzir ainda mais a presença dessas moléculas na fibra.

Processos industriais eliminam possíveis resíduos

agrotóxicos passam para as roupas
Fabricação do Denin, na tecelagem Covolan, parceira Sou de Algodão | Foto: divulgação

Peças de roupas, toalhas e outros produtos sofrem processos industriais intensos que levam tratamentos químicos diversos, como lavagens e tingimento. Estas etapas são, por si só, suficientes para eliminar quaisquer vestígios de resíduos químicos no algodão.

Já quando falamos do algodão para uso hospitalar ou cosmético, os processos incluem ainda eliminação de ceras e resíduos presentes na fibra para que ela se torne hidrófila, ou seja, extra absorvente. Estes processos também eliminariam possíveis moléculas de agroquímicos.

Segundo Michelle Souza, consultora do Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil (Senai CETIQT), cita a importância dos padrões da OekoTex Standard 100 para a detecção de agroquímicos na fibra e as transformações que a mesma sofre durante os processos industriais. Sua posição vai ao encontro do que afirmou o pesquisador Jean Belot, logo acima.

“À medida em que as fibras de algodão são transformadas em fios, tecidos e roupas, elas passam por diversos processos de aplicação de químicos, lavagens e acabamentos a úmido – como alvejamentos e tingimentos. Isso faz com que os produtos usados na plantação do algodão sejam removidos ou reduzidos a níveis não nocivos à saúde dos usuários”, afirma.

De acordo com a consultora, ainda não existe no Brasil uma metodologia própria para determinação de agroquímicos em tecidos de algodão.

Resíduos e água: como é o tratamento?

Estação de Tratamento de Efluentes da Covolan | Foto: divulgação

Os últimos anos representaram uma evolução importante para o tratamento de água por parte de fiações e tecelagens. Estas grandes indústrias são parte fundamental da cadeia produtiva do algodão e estão investindo cada vez mais em práticas sustentáveis.

A indústria têxtil brasileira Covolan, por exemplo, implantou, em 2019, a sua nova Estação de Tratamento de Efluentes, com capacidade de processar 150 metros cúbicos por hora. Com esta tecnologia, toda água utilizada nos processos de fabricação e tingimento é tratada através de um processo inovador chamado Membrane Bio Reactor, no qual o efluente tratado é filtrado através de membranas de ultrafiltração, após a degradação dos poluentes pelos microorganismos no reator biológico.

Além disso, a estação também conta com laboratório que realiza análises específicas para monitoramento da performance da ETE na remoção de contaminantes, que demonstram eficiências superiores a 90%. Com esta instalação foi possível também reduzir o lodo gerado, otimizando o resultado nos efluentes tratados e devolvidos à natureza.

Já com a instalação das usinas de geração de oxigênio na planta da Estação de Tratamento de Efluentes, é possível promover a aeração do reator biológico com tecnologia moderna e eficiente que representa economia de 50% de energia elétrica comparada com sistema tradicional de ar difuso. Estas tecnologias permitiram uma capacidade de tratamento muito maior, da qual não são utilizadas, atualmente, nem 50%.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Emad R. Attallah, Mahmoud Hamdy Abdelwahed & M. M. Abo-Aly (2017). Development and validation of multi-residue method for determination of 412 pesticide residues in cotton fiber using GC-MS/MS and LC-MS/MS, The Journal of The Textile Institute, DOI: 10.1080/00405000.2017.1322478

BREMEN COTTON EXCHANGE https://baumwollboerse.de/en/informationen/untersuchungen/

(Consulta em 21/11/2020)

Ma, M.; Ayaz, P.; Jin, W. ; Hussain, M. ; Zhou, W. (2019) Analysis of the Dissipation Behavior of Defoliants in Cotton Fiber during Field and Scouring Process Using Liquid and Gas Chromatography

International Journal of Analytical Chemistry, Volume 2019, Article ID 2879074, 5 pages https://doi.org/10.1155/2019/2879074

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

Emad R. Attallah, Mahmoud Hamdy Abdelwahed & M. M. Abo-Aly (2017). Development and validation of multi-residue method for determination of 412 pesticide residues in cotton fiber using GC-MS/MS and LC-MS/MS, The Journal of The Textile Institute, DOI: 10.1080/00405000.2017.1322478 

BREMEN COTTON EXCHANGE https://baumwollboerse.de/en/informationen/untersuchungen/ 

(Consulta em 21/11/2020) 

Ma, M.; Ayaz, P.; Jin, W. ; HussainM. ; Zhou, W. (2019) Analysis of the Dissipation Behavior of Defoliants in Cotton Fiber during Field and Scouring Process Using Liquid and Gas Chromatography 

International Journal of Analytical Chemistry, Volume 2019, Article ID 2879074, 5 pages https://doi.org/10.1155/2019/2879074 

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