“Passávamos as nossas férias em uma fazenda que meu pai administrava no interior de Goiás. Desde pequena eu sabia que não seria uma mulher da cidade”. A produtora Patrícia Sanglard Felipe Brunetta, de 43 anos, sempre teve essa certeza. Daquele tempo até hoje, ela desenvolveu um amor pelo campo que se reflete em sua trajetória e nos ótimos resultados de seu trabalho com o agro.

Ela trabalha com a produção de algodão desde 1999, quando se formou engenheira agrônoma pela Universidade Federal de Lavras. Graduada, casou-se com Édio Brunetta e mudou-se para a Fazenda Itaquerê, em Primavera do Leste (MT), município onde reside hoje com o marido e os quatro filhos: Felipe, de 17 anos, Luisa, de 15, Betina, de 12 e Arthur, de 10.

A fazenda é parte das propriedades do Grupo Itaquerê, empresa familiar administrada por cinco irmãos, dos quais seu marido é o mais novo e ocupa o cargo de diretor agrícola e de planejamento. O grupo cultiva, aproximadamente, 37 mil hectares de soja, 7 mil de algodão e 13 mil de milho.

Quando chegou à Fazenda Itaquerê, Patrícia ingressou como coordenadora do departamento de pesquisa do grupo, cargo que ocupou por quatro anos. Depois disso, assumiu como gerente de produção da Usina de Deslintamento de Sementes Itaquerê – Udesil, localizada no distrito industrial de Primavera do Leste.

A usina é responsável pelo beneficiamento da semente do algodão e, de lá, saem 60% de todas as sementes dessa commodity plantadas no país anualmente.

Desde que Patrícia esteve à frente da Udesil pela primeira vez, há 13 anos, o volume de produção da usina quintuplicou.

“O amor pela terra e pela agricultura aprendi ainda durante a minha infância com meu pai”, relembra Patrícia. O primeiro contato visual especificamente com a produção da pluma foi em 1996, quando Patrícia foi levada pelo pai para conhecer o plantio em Rondonópolis (MT).

Nesse mesmo ano realizou um estágio na Fundação Mato Grosso – antes disso, foi apresentada ao algodão, no ambiente universitário, pelo professor Carlos Antonio Fraga. “Tive a oportunidade de conhecer e conviver com grandes referências nacionais na cultura do algodão como o Dr. Eleusio Curvêlo e o Dr. Eurípedes Malavolta”, comenta.

Patrícia faz questão de ressaltar que, apesar da importância dada pela formação universitária, influências mais próximas são igualmente relevantes – e que o trabalho na lavoura é essencial. “A faculdade nos dá uma base, uma orientação, mas aprendi muito com meu marido e meus cunhados. Além deles, a equipe de gestores do Grupo Itaquerê sempre contribuiu, cada qual na sua especialidade, com minha formação. Aprendi a trabalhar trabalhando.”

Entre as grandes influências está também Tadashi Mine, produtor pioneiro e já falecido, que plantou algodão na Fazenda Itaquerê entre 1997 e 2002 e foi definido pela produtora como “o melhor professor que poderíamos ter. Um entusiasta da cultura no Brasil”. A proximidade era tanta que Mine foi padrinho de casamento de Patrícia e Édio.

O marido de Patrícia também é uma influência na sua paixão pelo algodão. “O Édio começou a trabalhar com a cultura logo nos primeiros anos dela no cerrado e se encantou. Com o passar dos anos buscou incansavelmente respostas para as perguntas que surgiam com a nova cultura. Desde então o algodão está em nossa família, em nossas vidas”, comenta.

Patrícia define o movimento Sou de Algodão como um movimento “fantástico e essencial” para que continue sendo desenvolvida uma percepção positiva da comunidade cotonicultora e de toda a sociedade sobre a cultura da pluma.

Ela observa que o universo agrícola possui diversas mulheres ocupando posições de destaque, atuando direta e indiretamente na produção de algodão. “Vejo que, muito mais do que currículos extensos ou experiência profissional internacional, as mulheres que atuam no agro trazem para esse universo predominantemente masculino a serenidade nas decisões, paciência nas análises, a doçura nas cobranças”, diz a produtora.

Ela aponta como, além da produção, o algodão cultivado pelo grupo impacta pela sua sustentabilidade. “Todas as propriedades e empresas do Grupo Itaquerê possuem licenciamento ambiental. As duas fazendas que cultivam algodão participam e são certificadas pelo IAS (Instituto Algodão Social)”, conta.

Além disso, a produtora reitera o envolvimento e comprometimento social do Grupo Itaquerê, dentro e fora do trabalho no cultivo. “Na Fazenda Itaquerê temos uma escola municipal na sede que atende principalmente os filhos de funcionários. Fui administradora desta escola nos 4 anos que vivi na fazenda”.

“Sou fiel ao meu quadro de funcionários e eles a mim. Nunca tive uma ação trabalhista sequer e tenho baixíssima rotatividade de funcionários”, ressalta Patrícia, demonstrando que o trabalho à frente da Udesil e nas fazendas exige envolvimento e comprometimento com todos os envolvidos, para além do trabalho técnico com a cultura.

“Minha principal contribuição na empresa tem sido a transmissão do meu amor e responsabilidade pelo trabalho para toda a equipe, que hoje entende que não são meros produtores de sementes, mas de renda e de vida”, reflete a produtora.