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blog / Neuroatípicos na moda: o que uma modelo autista tem a dizer?

saúde & bem estar | 28 de setembro de 2021 | 6

Raquel Abiahy é modelo autista e recebeu o diagnóstico apenas aos 39 anos. desde então, usa sua voz para promover a inclusão de pessoas do espectro autista na moda.

 

 “O autismo é uma variação neurológica, um fenômeno do desenvolvimento que afeta o indivíduo em múltiplos níveis (formas de pensamento, mobilidade, interação, processamento sensorial e cognitivo) de maneira distinta. O complexo conjunto de características que distinguem a neurologia autista da não autista não foi ainda completamente entendido, mas o certo é que tanto no nível sensório-motor, quanto no cognitivo, a mente autista tende a registrar mais informações e o impacto de cada fração de informação tende a ser mais intenso e menos previsível.” (Nick Walker)* 

O mês de setembro foi escolhido como o mês da inclusão social, a fim de conscientizar sobre a importância da acessibilidade às pessoas com deficiência. Reparem que a própria palavra – inclusão – é algo paradoxal: “por que falar em inclusão se nós já existimos?” Essa foi a pergunta de Rodrigo Dantas, idealizador da Osasco Fashion Week, evento que tem como principal característica ser diverso e inclusivo, trazendo modelos com corpos fora do padrão imposto pelo mundo fashion.

Raquel foi diagnosticada aos 39 anos após uma vida tentando entender o que havia de diferente em seu comportamento | Foto: Luís Cláudio Pachá

Nunca se falou tanto em diversidade e inclusão como agora; um sinal de que a sociedade começou a mudar sua mentalidade e atitudes diante das diferenças, e está aprendendo a acomodar a diversidade humana em todas as suas formas.

Estão aparecendo as chamadas “lideranças inclusivas”, que abraçaram o desafio de não só abrir espaço, como também, desenvolver uma cultura organizacional e uma consciência de inclusão, tendo como exemplos o Rodrigo, a agência GJM Models (que me descobriu e realiza eventos com objetivo social, promovendo as adaptações necessárias aos seus modelos com deficiência) e a marca de roupas Kephas, que produz peças sensorialmente acessíveis a autistas.

Estímulos sensoriais são diferentes em pessoas autistas

Muitos autistas sofrem de Transtorno do Processamento Sensorial, que afeta a capacidade dos sentidos de entender e processar estímulos sensoriais, como texturas, sons, luzes, cores, cheiros etc. Podemos ser hipo ou hipersensíveis, e essas características nos influenciam diretamente.

Quando uso uma roupa, por exemplo, ela precisa ser macia ao toque, não ter etiquetas nem costuras que incomodem, porque a sensação é de que algo me espeta ou arranha. Minhas peças prediletas são 100% algodão, sem etiquetas. O algodão é o tecido campeão entre os autistas por suas características únicas: é confortável, flexível, resistente, não causa nem acumula odores.

Depois do diagnóstico aos 39

Após ser diagnosticada autista aos 39 anos, essa passou também a ser minha realidade: a de alguém que busca ser incluída e aprender a incluir. Ter conhecimento de que estou no espectro me fez perceber que vivi muitos anos tentando adotar um comportamento que, para mim, era artificial no modo de falar, no modo de andar, no modo de me vestir, nos lugares frequentados, nas companhias escolhidas.

Nada disso me dava a sensação de estar sendo eu mesma. Pude compreender que usava máscaras sociais e a primeira da qual me livrei foi a de que deveria seguir um código de vestimenta a qualquer custo. Inúmeras vezes me obriguei a vestir uma roupa desconfortável só para me adequar a um ambiente ou agradar alguém. Vestir-se é comunicar-se e apresentar um pouco da própria personalidade, sendo a moda uma das maiores expressões da individualidade e da coletividade.

Foto: Lucas Furtado

O problema é que me deparei com uma realidade alarmante: autistas não têm representatividade suficiente. Tendo em vista que os diagnósticos de TEA – Transtorno do Espectro Autista vêm aumentando globalmente a cada ano – sendo que, somente no Brasil, estima-se que existam mais de dois milhões de autistas – é urgente que o mercado considere o autista como parte de um público consumidor crescente que necessita de adaptações específicas e não têm sua demanda atendida. O que torna ainda mais desafiadora a adaptabilidade para autistas é o fato do autismo ser um espectro, o que significa que, apesar de termos a neurologia autista em comum, somos imensamente diferentes uns dos outros.

O papel das empresas de moda na inclusão

Lideranças inclusivas podem ser pessoas, mas também marcas. Elas aceitam e procuram os desafios, correm riscos, educam e querem mudar o mundo, infundindo propósito no que fazem.

Desenvolver ou adaptar uma marca que represente a comunidade autista é sair na frente para conquistar um nicho praticamente inexplorado, associar-se à imagem da sustentabilidade, da preocupação com causas sociais e optar por uma tendência que chegou para ficar: a Moda Inclusiva.

6 comentários
  1. MARIA IZABEL NUNES XAVIER
    MARIA IZABEL NUNES XAVIER says:

    Raquel, fiquei emocionada com a reportagem. Quantas lutas internas e sociais você enfrentou. Você é linda e está abrindo caminhos para muitas pessoas que se sentirão estimuladas por você, pela sua coragem, altivez e por tudo que representa com seu trabalho. Parabéns a GJM pela grande descoberta. Te desejo muito sucesso! O importante é ser feliz! Um abraço carinhoso!

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  2. Patricia Barbosa
    Patricia Barbosa says:

    Querida Raquel, que orgulho de Você! Saber mais sobre a sua historia e constatar a beleza e superação em toda sua jornada, é um presente. Você é incrível! Conrinue sendo essa porta aberta para a inclusão de outras pessoas…Muito sucesso em sua carreira, um beijo grande.
    Patygirl

    Responder

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