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blog / Moda e a barreira invisível da mulher na sociedade

moda & estilo | 18 de março de 2021 | 0

Como a invisibilidade da importância da mulher na sociedade nos impacta ainda hoje e como elas ocupam o mercado atual da moda 

Começo a minha primeira coluna do ano no mês da Mulher e me parece sempre muito pertinente falar sobre narrativas femininas. Afinal, somos 51,8% da população do Brasil e basta uma breve análise para entender que não estamos ocupando proporcionalmente todos os espaços. 

No alto do século XXI, com movimentos reconhecidos pela sua força e assuntos pertinentes à realidade da mulher pipocando nas bolhas, parece que estamos em uma situação de maior entendimento sobre estas questões, mas não é bem assim. Esta jornada não é linear e há em nossa história momentos de maior liberdade, seguidos por outros de retração. 

O que diz a história? 

Por milênios, as mulheres foram tidas como cidadãs de segunda classe, tanto no Oriente quanto no Ocidente. O infanticídio por sexo, ou seja, matar meninas recém nascidas, era uma prática; em algumas regiões, seguimos nascendo sem sermos desejadas. 

No século XV, a repressão alcançou medidas assustadoras, como a caça às bruxas. Houve milhares de execuções, alguns autores falam em milhões. Mulheres foram condenadas por questões que, na visão da sociedade da épocaferiam expectativas sociais, políticas ou religiosas. 

A partir da Revolução Francesa (1789 – 1799), com os ideais de fraternidade e justiça, se deu início, em pequeníssimos passos, a compreensão por um grupo, que a igualdade era para todos os indivíduos. Já após a Revolução Industrial (1790 – 1840), as mulheres começaram a perder suas funções domésticas para o progresso que chegava aos lares. Ao mesmo tempo, a moda da época, com seus espartilhos (1804-1820) super apertados que chegavam a entortar costelas e causar asfixias e desmaios, era uma realidade na indumentária. Além de questões físicas a partir do seu uso, essa moda ampliava uma epidemia de anorexia; já estabelecendo padrões de beleza até hoje esperados. 

Uma mulher tem que fazer o que ela tem que fazer”. Mesmo e apesar de toda essa narrativa histórica, é incrível constatar a vivência de mulheres que se destacam com habilidades natas, já que não era permitido a elas educação. Frequentemente, a existência delas era clandestina, seja utilizando um dialeto próprio, como fez uma concubina de um imperador chinês, que criou uma caligrafia para se comunicar com suas amigas mulheres; seja se vestindo como homem, para assistir aulas em uma faculdade, como socióloga e pensadora Concepción Arenal, ou como María Perez, uma heroína castelhana do século XIIExistiram também inúmeros pseudônimos masculinos de escritoras mulheres ou o uso do nome dos maridos para fazerem publicações no século XIX. 

Houve ainda algumas que usavam sua própria identidade para viver toda a sua potência, independente da época. Outras se tornaram freiras para poder ter liberdade de estudar e desenvolver toda sua intelectualidade, umas viveram seu protagonismo ao se tornar viúvas, governar reinos e vencer guerras.  

Surgiram também mulheres como Maria da Penha, brasileira que ousou denunciar a violência sofrida e se tornou lei, protegendo tantas outras mulheres. 

No mercado da moda brasileira, mulheres ocupam 34% de cargos de liderança e recebem salários menores do que profissionais masculinos na mesma categoria.

Mulheres no mercado da moda 

A história nos ensina o padrão de sociedade construído e o quanto de luta foi preciso para que nós, mulheres, conquistássemos nossos espaços. Agora que alguns deles foram alcançados, seguimos lutando. A batalha é por proporcionalidade, sim, mas também para combater a percepção de que temos equidade de gênero como uma realidade da sociedade atual. 

Segundo dados da Abit, na moda e indústria têxtil, de cerca de 1,7 milhão de colaboradores empregados no setor, 75% são mulheres. Essa realidade de um emprego formal é importante, sem dúvida, mas se olharmos este número mais de perto, somente 11% das 500 maiores marcas brasileiras tem mulheres em sua tomada de decisão. 

Se as salas de aulas das faculdades de moda estão repletas de mulheres, podemos equacionar que essa maioria não chega aos cargos de liderança. Essa situação não é exclusiva da moda, pesquisas apontam que no Brasil mulheres ocupam 34% de cargos de liderança sênior e salários menores do que profissionais masculinos na mesma categoria. 

O que parece uma boa notícia é que a previsão para 2021, de acordo com estudo da empresa global de executive search, ZRG Brasil, é o aumento em todo mercado em 50% de mais mulheres na liderança”. 

Meu desejo pessoal é que a moda faça coro com essa previsão. Seguimos reivindicando visibilidade, liberdade de ir e vir e educação, mas temos na evolução do tema o reconhecimento de uma longa lista de pautas e conceitos – que nomeiam também antigos comportamentos –, como sororidade, mansplaining, igualdade salarial, manterrupting, violência doméstica, gaslighting, etc. 

E, para não encerrar sem honrar quem veio antes de mim, uso este último parágrafo para agradecer minha avó Maria Vianna que, aos 50 anos, se formou técnica em enfermagem e trouxe dignidade financeira a sua família. Minha mãe Eunice Vianna Ferreira que sempre me apoiou em tudo que decidi fazer, já defendendo a máxima que diz que ‘lugar de mulher é onde ela quiser’. E Selma Vieira Magalhães, minha família escolhida e professora da rede pública, por me ensinar sobre apaixonar-se pelo seu ofício e tantas coisas sobre a sociedade em que vivemos.  

Uso este espaço também para enaltecer as profissionais que trabalham no  Sou de AlgodãoCotton Brazil e Abrapa. Meu desejo para todos os dias é que sejamos aliadas e multiplicadoras, para que mais mulheres ocupem todos os espaços. 

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