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blog / Conheça o Periferia Inventando Moda, a revolução fashion das comunidades

algodão & sustentabilidade | 23 de setembro de 2021 | 2

Entrevistamos o estilista Alex Santos, cabeça por trás do Periferia Inventando Moda, que há 7 anos influencia um novo ponto de vista sobre o mercado.

“Acredita que nunca sonhei em ser estilista?”. As surpresas sempre foram parte da vida de Alex Santos, gestor de um projeto que vem mudar o olhar sobre a moda no Brasil, o Periferia Inventando Moda (PIM). 

Hoje, o PIM capacita e fomenta a potência criativa da comunidade, além de ser parceiro do movimento Sou de Algodão e presença ilustre nos desfiles da Casa de Criadores. 

“Em 7 anos de PIM, Alex diz que já realizou desfiles para zero pessoas na plateia, mas hoje colhe os frutos da batalha pela ocupação de um espaço que sempre foi seu por direito. “Não queremos estar nos eventos e nos lugares onde a moda circula só para sermos a cota, mas sim porque merecemos”. 

Batemos um papo com ele sobre representatividade, algodão e periferia no centro das atenções.  

Alex Santos, estilista e idealizador do Periferia Inventando Moda | Foto: Divulgação

SdA  – O Periferia Inventando Moda está completando 7 anos. Neste tempo, o que você enxerga de transformação no projeto e no modo com que a periferia é encarada no Brasil?

AS: Nestes 7 anos de PIM conseguimos mostrar realmente a potência que somos, conquistando cada vez mais espaço e lugares que são nossos por direito. Vimos que muitas coisas acontecem no mundo da moda pela influência que causamos. Se hoje temos uma representatividade nos eventos, isso é reflexo dessa potência. Ainda assim, a periferia ainda sofre para conquistar o grande respeito da indústria.  

SdA – Como gestor de um projeto que teve repercussão nacional, como você encara o desafio de manter a relevância e o impacto da iniciativa? 

AS – Continuar essa relevância não é um papel muito fácil, ainda mais quando não temos um aporte financeiro para continuar fazendo o nosso trabalho, que é belíssimo. Não imaginava que iríamos ter essa repercussão nacional e também internacional, ainda mais por sermos periféricos. A sociedade ainda não tem um olhar aberto para nós, sentimos como se tivesse um muro que faz uma divisão entre o morro e o asfalto. Mesmo sendo um desafio, estamos sempre na luta para mostrar que somos pioneiros no que fazemos. 

SdA – Quais as melhores lembranças e memórias que você tem do Periferia Inventando Moda nestes anos?

AS – São tantas histórias que não cabem nesta entrevista! Em nossa segunda edição, que aconteceu em meados de 2015, apresentamos o evento para ZERO de público e, mesmo assim, fizemos acontecer como se fosse um ensaio geral. Tivemos a participação do Rober Dognani e Felipe Fanaia que são residentes da Casa de Criadores e que, mesmo sabendo que não teria público, fizeram tudo acontecer. Tivemos modelos que não tinham salto para usar e outras que acabaram emprestando os calçados, entre um desfile e outro. 

Modelos em treinamento no PIM | Foto: divulgação

SdA – A Casa de Criadores levou o PIM para um circuito de moda autoral. Como é ver o projeto como referência e tanto respeito neste universo?

AS – A Casa de Criadores sempre foi a nossa inspiração. Desde o início, tivemos vontade de fazer parte de lá e foram alguns anos de muito namoro para, hoje, estarmos neste ambiente. O André Hidalgo sempre mostrou um carinho imenso pelo PIM e isso nos fortaleceu muito, desde a nossa primeira participação, incluindo os modelos. Hoje, temos 5 marcas no line-up e não apenas incluímos os modelos, mostramos que a moda pode, sim, ser feita por todos. Cada participação no evento é muito gratificante e esperamos que a CDC possa nos atender cada vez mais.   

SdA – Como foi o início da sua carreira como estilista?

AS – Se eu contar que nunca sonhei em ser um estilista vocês acreditam? Sou filho de pernambucanos, nasci e fui criado aqui em SP. Minha mãe sempre trabalhou na roça com meu avô e acredito que uma parte dessa luta eu trago em vida. Meu primeiro emprego foi com 15 anos ao lado do meu pai no restaurante do qual hoje ele é dono. Neste meio tempo, fui convidado para ser modelo de uma agência, o que não deu muito certo. Porém, essa passagem me despertou uma vontade de estar naquele universo. Aos 24 anos, quando morei com uma amiga em Cotia, comecei a fazer alguns croquis e foi quando ela me incentivou a fazer algum curso para aprimorar.  

Após sair de Cotia, voltei para a comunidade de Paraisópolis e foi onde eu comecei a procurar cursos de corte e costura. Tive um pouco de dificuldade porque um dos locais de profissionalização me rejeitou por causa da minha homossexualidade. Como eu não desisto fácil dos meus objetivos, procurei outro curso e ainda bem que consegui. Aliás, fui o único garoto da turma, que tinha 10 mulheres. Depois, fiz design de moda pela Universidade Anhanguera e hoje sou formado, com minha marca e com o PIM.

O estilista Gustavo Silvestre, suas criações em crochê e modelo do PIM, trabalho em conjunto para a Casa de Criadores | Foto: divulgação

SdA – Qual o impacto que a pandemia teve no PIM e como está a programação e planejamento para os próximos meses?

AS – O PIM sofreu um grande impacto: todos os nossos cursos são presenciais e isso afetou o cronograma. Ficamos a pandemia inteira sem atividade e foi quando tive uma crise existencial e depressão. Mas o PIM está voltando às suas atividades e, neste ano de 2021, já tivemos algumas turmas, com um número pequeno de alunos para respeitar os protocolos de segurança da COVID-19. Conseguimos participar da Casa De Criadores em 2 edições online e foi uma experiência maravilhosa poder fazer fashion film e mostrar um pouco do nosso trabalho. Agora, neste

Desfile para a Casa de Criadores | Foto: divulgação

segundo semestre, vamos voltar com nossas aulas no CEU Paraisópolis onde tudo começou, além de participar do Fashion Day Portugal e iniciar um trabalho de intercâmbio com marcas brasileiras e portuguesas. 

SdA – Quais são suas maiores inspirações hoje, como estilista?

AS – Isaac Silva, Priscila Silva, João Pimenta e Ronaldo Fraga. 

SdA – Qual a importância da parceria com o Movimento Sou de Algodão para o PIM e como a fibra natural entra na criação dos estilistas da periferia?

AS – Fazer parte do movimento Sou de Algodão foi uma realização. Sabemos o quão difícil é ter pessoas e empresas que acreditem em nosso trabalho como periféricos e o Sou de Algodão nos abraçou de uma forma encantadora! Minha primeira participação no desfile do Manifesto 3.0 foi incrível e até hoje sou muito grato, pois abriram portas para nós e apresentaram vários parceiros que hoje são fundamentais em nosso trabalho. Para as marcas do Periferia Inventando Moda, o movimento gerou um impacto maravilhoso e espero continuarmos juntos por muito tempo, porque ainda temos muito o que mostrar para vocês e para o mundo!  

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