
Ronaldo Fraga apresenta “Cartas de Algodão” no SPFW N61
Há cartas que atravessam gerações, guardam lembranças e encontram novas formas de contar histórias. É desse universo que nasce Cartas de Algodão, coleção assinada por Ronaldo Fraga para celebrar os dez anos do Sou de Algodão na 61ª edição do São Paulo Fashion Week (SPFW), no dia 15 de outubro.
Criado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) em 2016, nosso movimento volta à passarela onde nasceu para comemorar uma década de conexões entre produtores, profissionais da cadeia têxtil, marcas e consumidores. Desta vez, o convite a Ronaldo Fraga coloca a criação autoral no centro da celebração, explorando as possibilidades do algodão brasileiro para além de sua aplicação como matéria-prima.
“O Sou de Algodão nasceu no SPFW em 2016 e comemorar os 10 anos dessa iniciativa onde tudo começou é muito simbólico para nós. Convidamos o Ronaldo para assinar essa coleção como uma forma de dar profundidade e autoria a essa celebração”, afirma Renata Caixeta, gerente de Desenvolvimento de Negócios da Abrapa.
O encontro também dialoga com a trajetória do estilista mineiro, que celebra 30 anos de carreira e construiu uma linguagem própria ao aproximar moda, literatura, cultura popular e questões sociais. Em Cartas de Algodão, Ronaldo Fraga parte de correspondências manuscritas, lembranças familiares e objetos cotidianos para investigar aquilo que permanece quando o tempo passa.
Entre cartas, bordados e falsos brancos
Bilhetes esquecidos entre livros, fotografias amareladas, enxovais bordados e cartas de amor são algumas das referências que orientam a coleção. Mais do que reproduzir esses objetos, Ronaldo Fraga procura traduzir suas marcas e significados em construções têxteis. A cartela de cores parte dos chamados “falsos brancos”, reunindo variações de marfim, tons naturais e superfícies que remetem a papéis antigos. Pontos de cor inspirados na tinta de canetas contrastam com tecidos de aparência envelhecida, enquanto manchas, recortes, sobreposições e bordados ajudam a construir a identidade visual das peças.
Nas silhuetas, a coleção explora cinturas marcadas, volumes, alfaiataria e diferentes camadas de tecido. Com styling de Paulo Martinez, a construção dos looks também considera combinações de comprimentos, golas, coletes e acessórios, elementos discutidos durante o desenvolvimento da coleção para ampliar as possibilidades de composição na passarela.
Estampas inspiradas em envelopes e correspondências reforçam o diálogo com a escrita, enquanto detalhes artesanais revelam outras possibilidades de trabalhar o algodão, das superfícies delicadas às estruturas mais encorpadas. A relação entre roupa e linguagem acompanha o trabalho de Ronaldo Fraga há décadas. Em entrevista ao Estadão, o estilista definiu essa conexão como “a roupa como escrita”, associando o vestir à expressão de desejos, afetos e posicionamentos políticos.
Em Cartas de Algodão, essa perspectiva ganha uma dimensão especialmente íntima. O estilista recupera a ideia de correspondências que nunca chegaram aos destinatários, mas preservaram sentimentos e testemunhos de outras épocas. Como escreve no texto de apresentação da coleção, o algodão assume o papel de “papel, pele, memória e território”.
Quando a palavra encontra o tecido
Para ampliar esse diálogo entre moda e literatura, Ronaldo Fraga convidou a poeta, escritora e artista têxtil Bianca Ramoneda. Conhecida por seu trabalho com palavras bordadas sobre tecidos antigos, Bianca investiga a memória presente em peças domésticas, como lenços, toalhas e guardanapos, atribuindo novos sentidos a materiais que já carregam suas próprias histórias.

“Escrever é uma forma de bordar e bordar é uma forma de escrever”, afirma a artista, que entende a criação como um exercício de cuidado com as narrativas e com os objetos que as preservam.
Sua contribuição para Cartas de Algodão reúne três caminhos: trechos de correspondências familiares antigas, poemas de seu livro Caderno de Costuras e versos inéditos inspirados em segredos, confissões e intimidades. As palavras passam a integrar as roupas como pequenas cartas que podem acompanhar o corpo, ser guardadas ou compartilhadas.
A presença do trabalho manual também se estende a outros elementos previstos para a coleção. Crochês, bordados, acessórios inspirados na flor do algodão e objetos que remetem a lembranças pessoais compõem o repertório criativo apresentado por Ronaldo Fraga.
Sob direção criativa de Paulo Borges, a concepção do desfile também contempla a relação entre as roupas e o espaço. Entre as propostas discutidas pela equipe, os varais com peças de algodão e frases costuradas aparecem como um dos principais elementos cenográficos. Durante o desenvolvimento do projeto, Borges destacou o potencial dessa composição para criar uma imagem singular na passarela, considerando também a importância de evitar excessos visuais.
Ao reunir diferentes técnicas e linguagens, a coleção evidencia a importância dos saberes artesanais e das mãos envolvidas na construção de uma peça de moda. Um olhar que se conecta ao propósito do Sou de Algodão de valorizar os profissionais da cadeia produtiva e têxtil brasileira.
Dez anos depois do nosso nascimento no SPFW, encontramos em Ronaldo Fraga uma maneira de celebrar sua trajetória olhando também para o futuro: aproximando criação, cultura e conhecimento sobre a fibra natural que está na origem de tantas roupas e histórias brasileiras.
Algumas histórias merecem ser guardadas. Outras, compartilhadas. A nossa segue sendo escrita a muitas mãos. Nos vemos na passarela!
Cartas de Algodão será apresentada em 15 de outubro, às 17h, no Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA), no Parque Ibirapuera, durante o SPFW N61.

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