
Antes de chegar na indústria, a fibra passa pela algodoeira; conheça o beneficiamento
Conheça as etapas do beneficiamento que transformam o algodão em fios, tecidos e roupas
Antes de virar fio, tecido, camiseta ou lençol, o algodão faz uma parada obrigatória. Ele passa pela algodoeira. Fora da cadeia produtiva, pouca gente conhece esse nome. Menos gente ainda sabe o que acontece ali dentro.
A algodoeira é a unidade responsável pelo beneficiamento da fibra. Após a colheita começa o trabalho de triagem, uma espécie de almoxarifado a céu aberto, cheio daquele “rocambole” gigante branquinho. Além da variedade cultivada, são avaliados fatores como níveis de umidade e possíveis contaminantes para evitar misturas durante o processo.
São essas identificações que ajudam a não falhar no momento de agrupar os lotes para entrar no beneficiamento. Cada lote tem uma história. Cada detalhe importa. E o produtor, Carlos Alberto Moresco, que tem cultivo em Luziânia (GO), sabe bem disso. “Se você misturar uma variedade com a outra para beneficiar e lá tiver talhões diferentes, você terá problemas de fibras diferentes no mesmo fardo e isso compromete toda a operação”. O cuidado pode parecer exagero para quem vê de fora. Mas é essa organização que ajuda a preservar o trabalho feito no campo.
A produtora baiana, Alessandra Zanotto Costa, que também preside a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), concorda com Moresco e tem uma frase interessante para definir o papel da algodoeira como guardiã. “A qualidade é construída no campo durante toda a safra, mas ela pode ser perdida em poucas horas se o cuidado final não for tomado. Não se pode errar nos últimos metros da corrida”.
E os tais últimos metros da corrida começam, justamente, na primeira máquina apelidada de “piranha”. Eu explico. É porque ela “abocanha” e distribui o algodão para o restante do procedimento. Na sequência, uma corrente de ar quente ajuda a abrir a fibra e a remover boa parte (75%) das impurezas. Folhas, pequenos pedaços de caule, cascas e outras partículas vão sendo separados.
O material segue impulsionado por um sistema de sucção. O percurso acontece por meio de dutos e correntes de ar que levam de uma máquina para outra. Depois, recebe mais uma leva de limpeza e então finalmente chega a vez do descaroçador.
O coração da algodoeira
Se a algodoeira fosse um organismo vivo, o descaroçador seria o coração. E para falar desse “coração”, não chamei um cardiologista. Chamei quem entende de algodão. O consultor em beneficiamento, Edmilson Ferreira, explicou o motivo dessa comparação. “É ali que acontece a principal transformação. Entra pluma, caroço e impurezas e cada componente segue um caminho diferente”.

Essa é uma fase importante para manter a qualidade cultivada no campo que a gente falou lá no começo da conversa. E o segredo está no ponto certo. Nem seco, nem molhado. “Eu preciso ter um equilíbrio de umidade para que não tenha agressão mecânica e gere ruptura. Mas não posso trabalhar com ele estando excessivamente úmido”, esclarece Edmilson. Por isso, depois da secagem utilizada na limpeza, parte da umidade é devolvida por meio de vapor.
E já que estamos falando de apelidos, essa máquina também atende por outro nome. Em muitas unidades ela é chamada de “cachoeira”, porque escorre um grande volume enquanto acontece essa separação. Tudo branquinho. Posso chamar de Cataratas do Algodão?
Bom, caroço de um lado e fibra do outro, ainda temos mais uma etapa pela frente. É hora do procedimento chamado de limpa-pluma. Guardadas as devidas proporções, é como passar um pente nos fios antes de prender o cabelo (empacotar).
Mais tarde, já na indústria têxtil, ele pode virar fios cardados ou penteados. A diferença é que o penteado passa por uma espécie de “pente fino”, deixando tudo ainda mais uniforme. O resultado aparece no toque, no caimento e até na durabilidade do tecido, características normalmente associadas a peças de maior valor agregado.
Mas só sai da algodoeira se emitir um CPF

Depois de tanto separar e organizar, vamos para a documentação. Na fase final, tudo é compactado em fardos de 200 e 230 quilos e só sai dali com uma espécie de CPF. Cada um deles recebe uma etiqueta do Sistema Abrapa de Identificação (SAI), que acompanha ao longo da cadeia. Esse código agrupa aquelas informações lá da colheita e acrescenta outros detalhes, como a unidade responsável pelo beneficiamento e os resultados das análises de qualidade.
Mas ainda não acabou. Quando finalmente o material é prensado e fica pronto para pegar estrada, é preciso transformar os resíduos em subprodutos. Além da pluma, o processo gera outros materiais que seguem caminhos completamente diferentes, abastecendo cadeias tão diversas quanto saúde, cosméticos e até nutrição animal.
E talvez essa seja uma das características mais curiosas da algodoeira. Enquanto a fibra segue viagem para que a indústria faça fio, tecido, camiseta ou lençol, outras partes do algodão começam novas jornadas.
Só que essa é uma conversa que merece uma parada só para ela. Mas para não estragar a surpresa, deixei esse tema para nossa próxima coluna.


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