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algodão & sustentabilidade

Algodão em fio: como as artes manuais moldaram e disseminaram a cultura popular no Brasil

19 de outubro de 2026 | 0

Talvez você tenha, como eu, a lembrança de alguém fazendo uma peça com uma agulha no colo enquanto assistia à televisão. Ali, com dois palitos ou uma agulha de crochê, os fios se entrelaçavam para virar trilho de mesa, uma manta quentinha ou uma roupa de bebê para o enxoval. Por isso, não é exagero dizer que muitos brasileiros têm uma profunda relação com peças e produtos artesanais. Antes mesmo de perceber a modelagem, a cor ou a tendência, reconhecemos algo naquela trama.

Memória e identidade com potência para chamar atenção do mercado de moda. Segundo o IBGE e o Sebrae, o Brasil tem mais de 8,5 milhões de artesãos. Sendo 87% mulheres que aprenderam o ofício dentro de casa, com as mães e as avós. Os números variam, mas estima-se que o setor movimenta entre R$ 50 bilhões e R$ 100 bilhões por ano, algo em torno de 3% do PIB brasileiro.

A manualidade deixou de ser “artesanato aplicado à moda” e passou a ser moda feita a partir do artesanato. E o fio de algodão tem um papel especial nessa narrativa. Presente tanto em produtos de moda quanto em trabalhos artesanais, ele pode ser transformado pelas mãos em superfícies, volumes, texturas e estruturas muito diferentes.

A escolha do fio interfere no caimento, no toque, na resistência e até na aparência final da peça. Para trabalhos manuais, o algodão é uma das fibras mais utilizadas justamente pela versatilidade e pela possibilidade de aplicação em técnicas que vão do vestuário ao amigurumi.

Marca parceira: Criações Fofinhas de Amigurumi.

O algodão como fio condutor entre matéria, técnica e memória

Se o crochê é a cara dessa história, o algodão é o corpo, e o momento dele nunca foi tão expressivo. Dados da Abrapa – Associação Brasileira dos Produtores de Algodão, revelaram que o Brasil terminou o ano comercial 2025/26 como maior exportador mundial de algodão. Foram 3,37 milhões de toneladas embarcadas, um recorde histórico.

É uma escala gigantesca para uma matéria-prima que, em outro extremo da cadeia, pode terminar em uma pequena peça feita ponto a ponto.

Os dados históricos sobre o perfil dos artesãos brasileiros mostram também a forte presença feminina e a transmissão familiar desses saberes. Das cerca de 8,5 milhões de pessoas do setor, a esmagadora maioria aprendeu vendo alguém da família tramar. Isso significa que cada peça que chega às araras carrega, embutida, uma cadeia de conhecimento transmitido de geração em geração.

Quando uma marca brasileira assina um look usado em Nova York, ela não está vendendo só um vestido. Está exportando essa cadeia de
conhecimento transgeracional que nenhuma outra economia sabe fabricar em série.

Mas o fio condutor vai além do volume. Um bom exemplo dessa internacionalização é o look usado pela cantora SZA, no after-party do Met
Gala deste ano. Ela posou com um conjunto de crochê feito à mão da Fio e Areia, grife do norte do Brasil fundada por Sandy Gomes. Vale destacar também um capítulo que é puro Brasil: o algodão colorido do Cariri paraibano, que nasce com tons terrosos e naturais sem precisar de tingimento, cultivado por famílias que guardam essa semente há gerações.

Nesse mesmo território de rendas e saberes, ateliês como o da potiguar Martha Medeiros cruzam a renda renascença, patrimônio artesanal do sertão, com design contemporâneo em peças que atravessam gerações.

Heloisa Faria
SPFW N56
Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

A moda aprendeu a valorizar o trabalho e saberes manuais. Entendeu que eles não precisam de mudanças para serem sofisticados, percebeu que ambos podem ser o ponto de partida para criar algo novo. Aqui vale relembrar o desfile “Manualidades”, que aconteceu na São Paulo Fashion Week N58, apresentado pelo Sou de Algodão.

Foram 36 looks criados por 12 estilistas, com técnicas como crochê, tricô, macramê, aplicações e patchwork. A proposta colocou o fazer manual no centro da criação — e não como simples acabamento decorativo. Adriana Meira, por exemplo, levou para o projeto uma referência
diretamente ligada à memória familiar: a sobreposição de tecidos em sua criação foi inspirada nas colchas de retalhos feitas por sua avó, combinadas às flores imaginárias do sertão onde cresceu.

É uma síntese do que a manualidade pode significar como linguagem cultural e afetiva. De como uma peça tramada à mão pode ser o registro físico de um modo brasileiro de criar, fazer e transmitir conhecimento.

Cinco vozes do fio, um mesmo sotaque afetivo

Para entender melhor essas linguagens, vale observar cinco técnicas que aparecem entre as mais populares e versáteis.

O crochê é o desenho livre da agulha: curvas e texturas que nenhuma máquina reproduz com a mesma organicidade. Quem já comparou um poncho industrial com um feito à mão entende: a irregularidade, aqui, não é defeito. É assinatura.

O tricô carrega a memória do frio: o suéter feito pela avó, o cardigã emprestado, a meia de bebê. Aqui precisamos nos orgulhar de como a
tropicalidade brasileira afetou a técnica de hoje. Foram desenvolvidas malhas leves e frescas, por isso, é possível usar tricô em todas as estações.

O macramê é o mais escultural: a arte dos nós, sem agulhas, apenas amarrações que constroem estruturas com o fio. Do vaso suspenso da década de 70 à bolsa de praia e ao vestido de franjas, a técnica ganhou novas proporções na moda. A Catarina Mina é um exemplo de marca que ajuda a entender essa transformação. Criada no Ceará, trabalha com diferentes fazeres artesanais e mantém uma metodologia colaborativa com grupos de artesãs.

Hoje, a marca permite inclusive que o consumidor conheça, por meio de um QR Code, quem fez sua peça. Trabalha com técnicas como crochê, bilro, labirinto e palha.

E o amigurumi, técnica japonesa de bonecos tridimensionais em crochê, virou linguagem de carinho no Brasil: lembrancinha de maternidade, chaveiro na mochila, amiguinho pendurado na alça da bolsa. Talvez a técnica que mais circula entre gerações.

Na moda, essa estética aparece hoje também nos chamados bag charms. É quase como se a nostalgia tivesse encontrado uma
nova maneira de sair do quarto das crianças e circular pela rua.

Árvore de Natal feita 100% em crochê | Foto: Mariana Parente/SPS

E há ainda o patchwork, técnica de costurar retalhos de tecidos diferentes formando um mosaico único. No Brasil, ela nasceu da escassez criativa: sobras de roupa, restos de pano de prato, pedaços de vestido antigo viravam colchas, saias e nécessaire. Na moda contemporânea, ele retorna como símbolo de sustentabilidade afetiva, reaproveitando o que já existia em vez de produzir do zero.

Em todas essas linguagens, existe um elemento que vai além da estética: o tempo. Uma blusa de crochê concentra horas de trabalho manual. Uma trama de macramê exige repetição e precisão. Um amigurumi depende de dezenas de pequenos movimentos para ganhar forma. O preço de uma peça artesanal, portanto, não pode ser comparado apenas ao custo da matéria-prima. Existe ali uma quantidade de trabalho que não aparece na etiqueta. E esse trabalho tem impacto econômico.

Dados mais recentes do Programa do Artesanato Brasileiro mostram, por  exemplo, que as feiras apoiadas pelo programa movimentaram mais de R$ 70 milhões em vendas e R$ 12 milhões em encomendas entre 2017 e 2025, com mais de 1,5 milhão de peças comercializadas. Em 2026, o 22º Salão do Artesanato registrou R$ 5,68 milhões em negócios e beneficiou diretamente 757 artesãos. É importante olhar para esses números sem romantizar o fazer manual.

Por trás de uma peça bonita existe trabalho, existe tempo. E, em muitos casos, existe uma rede de mulheres que sustenta e transmite um conhecimento que poderia simplesmente desaparecer se deixasse de encontrar espaço no mercado, nas histórias de família. Ao olhar para as manualidades, encontramos uma das formas mais interessantes de pensar a brasilidade hoje: não como uma estética pronta, cheia de símbolos óbvios, mas como aquilo que conseguimos reconhecer nas coisas feitas por aqui.

O fio de algodão conta, assim, a história de um Brasil que se faz à mão e descobriu que essa história também pode vestir o presente.


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