
algodão & sustentabilidade
Os biológicos e a moda, onde está o match?
Esses dias, uma joaninha pousou na janela da sala de casa. Foi a primeira vez que o João, meu filho de um ano e oito meses, viu uma de perto. Coloquei na palma da mão dele e expliquei que ela não mordia, não picava e era completamente inofensiva, além de muito lindinha. Dizem que a joaninha é sinal de sorte. Isso eu não sei. O que eu sei é que ela controla pulgões e outros insetos que podem prejudicar as plantas. É bonita e trabalhadora. Mas o que essa conversa sobre joaninhas e pulgões tem a ver com a moda, o guarda-roupa e o algodão? Calma, eu vou chegar lá.
Desde muito antes de existir agricultura, a natureza já sabia resolver muitos dos seus próprios problemas. As abelhas fazem a polinização. Para quem não conhece, a polinização é o transporte do pólen de uma flor para outra, permitindo a produção de frutos e sementes. Já as minhocas deixam a terra mais fértil e podem até servir de isca para quem faz pescaria no modo raiz. E quem já ouviu essa frase? “Deixa a lagartixa aí porque ela come mosquito e barata”. E come mesmo. Mas se eu te disser que até a barata tem papel ecológico? Ela ajuda a decompor matéria orgânica e serve de alimento para outros animais.
Há mais de duas décadas, o campo começou a incorporar essa inteligência por meio dos chamados bioinsumos. O uso ganhou força especialmente nos últimos sete anos, quando deixou de ser uma inovação complementar para se tornar parte do manejo da produção. Para entender melhor quem são esses aliados invisíveis, fui atrás de uma explicação que fosse fácil de entender, tanto do ponto de vista da lavoura, como da indústria que produz insumos agrícolas.

Drones são utilizados para a aplicação de bioinsumos
É a vida cuidando da vida
Foi assim que Ricardo Hendges, diretor de Marketing da BIOTROP, empresa apoiadora do Sou de Algodão, resumiu o conceito de biológicos. Em vez de inventar uma solução do zero, a pesquisa e a ciência observaram como o equilíbrio natural controla pragas, fortalece o solo e protege o cultivo. Com essa informação, os microrganismos foram multiplicados em laboratório para fazer no campo o que já fazem na natureza. “Nós pegamos bactérias e fungos que são benéficos, encontrados nos diferentes biomas do Brasil, colocamos tecnologia e devolvemos para o sistema produtivo”.
O processo é mais ou menos assim. Bactérias e fungos passam por fermentação em grandes tanques, lembrando a produção de cerveja. Já os insetos são cultivados nas chamadas biofábricas. Imagine abrir a porta de um galpão e encontrar milhões de vespas sendo criadas em ambientes climatizados. Ou joaninhas se alimentando e se reproduzindo até formarem enormes populações. Parece cena de filme, mas é exatamente assim que se multiplicam.
Tá, mas como uma bactéria ou um fungo vão parar dentro de um frasco vendido para uma fazenda?
A essa altura, você pode estar se perguntando exatamente isso. Funciona assim. O material produzido passa por etapas de separação e concentração e depois é misturado a uma formulação, que pode levar água e outros componentes que ajudam a manter o organismo estável, vivo e em uma dosagem adequada até a aplicação.
Já no caso dos bichinhos, a logística muda. A viagem é feita ainda em fases de ovos ou pupas, protegidos em pequenas embalagens. Na fazenda, esse material é colocado em equipamentos acoplados a drones, que fazem a distribuição pela plantação. Depois, o ciclo se completa. Os insetos crescem e vão atrás das pragas.
Só que o papel dos bioinsumos vai muito além de proteger e adubar. Segundo Lício Augusto Pena de Sairre, diretor executivo da Associação Mineira dos Produtores de Algodão (Amipa), eles ajudam a potencializar os nutrientes que já existiam no solo e também trazem para o cultivo o que ele não teria acesso.
“O fósforo, por exemplo, fica “preso” e fora do alcance da vegetação e esses insumos naturais fazem com que chegue até as raízes. Outros favorecem o aproveitamento do nitrogênio presente no ar, reduzindo parte da dependência brasileira de fertilizantes importados”, destaca.
Do bichinho ao cabide
Se essa tecnologia existe há mais de 20 anos, por que ela ganhou tanta força agora? Porque a conversa mudou. O mundo e o consumidor mudaram. Do ponto de vista de produtividade agrícola, hoje a discussão não é mais se os bioinsumos funcionam ou não. O debate é sobre qual o combo de produtos será usado para gerar mais valor, rendimento e sustentabilidade para a cadeia produtiva. Em outras palavras, o produtor deixou de enxergar como uma curiosidade e passou a incorporá-los na lavoura porque percebeu, na prática, que ajudam a produzir mais e melhor.
“Esse manejo ajuda a preservar inimigos naturais das pragas, polinizadores, matas, rios e a biodiversidade. No fim, o consumidor pode fazer uma escolha mais consciente, sabendo como aquele algodão foi produzido”, completa Sairre.
A Amipa estima que esse trabalho já permite uma redução anual de 150 mil litros de produtos químicos e 15 mil litros de óleo diesel. O diesel entra nessa conta porque é utilizado nos tratores que fazem a pulverização com os produtos convencionais. Esse movimento também aparece nas fazendas licenciadas pelo programa Better Cotton, onde 62% já reportam o uso de algum tipo de biológico, mostrando que a prática vem se consolidando entre os produtores de algodão.
Até aqui falamos sobre o que muda dentro da fazenda. Porém, na visão da indústria da moda, isso também tem relevância. O consumidor final é impactado, pois passa a ter acesso a uma fibra produzida com menor pegada ambiental e dentro de critérios de sustentabilidade. O algodão passa por diferentes processos na indústria, como fiação, tecelagem e tingimento. O campo contribui ao entregar uma matéria-prima produzida com mais consciência e menor uso de químicos.
Nem sempre a lagartixa dá conta
No entanto, vale dizer que os produtos químicos continuam sendo ferramentas necessárias na produção. Os bioinsumos ajudam a reduzir o uso deles e oferecem novas formas de controle, mas nem sempre conseguem resolver todos os problemas sozinhos, pelo menos por enquanto.
Lembra da história da barata e a lagartixa lá no início da leitura? Se a barata resolver aparecer no seu quarto às duas da madrugada e não houver lagartixa por perto, provavelmente você não pensa duas vezes e corre para pegar o inseticida, não é mesmo? Na lavoura, a lógica é parecida.
A natureza nunca sai de moda
Quero encerrar essa coluna fazendo mais uma analogia, pois já perceberam que eu gosto bastante dessas comparações. A moda é viva. Está sempre mudando. Nos anos 1970, a calça boca de sino tomou as ruas. Na década de 80, vieram as ombreiras e os volumes. Nos anos 2000, a cintura da calça desceu até onde foi possível. Hoje, em 2026, a calça capri voltou às passarelas, provando que a moda adora se reinventar e, de vez em quando, buscar alguma coisa lá no fundo do armário.
A agricultura também é viva. Novas tecnologias surgem, as práticas evoluem e aquilo que funcionava ontem pode ter inovações amanhã. E, no meio disso tudo, está a natureza, que sempre esteve em movimento. Ela é viva, se adapta, encontra equilíbrio e, agora, também inspira soluções que ajudam a produzir a fibra sustentável que vai chegar ao nosso guarda-roupa. A moda do futuro começa no campo, antes de chegar no cabide. Nos encontramos na próxima coluna.

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