
Estúdio Traça: quando tudo pode ser outra coisa
Criar a partir do que já existe e fazer disso algo que ninguém imaginou antes. Talvez seja uma boa forma de começar a falar sobre Gui Amorim.
À frente do Estúdio Traça desde 2016, o estilista parceiro do Sou de Algodão construiu um trabalho autoral que encontrou no denim um terreno fértil para experimentar. Em dez apresentações na Casa de Criadores, Gui levou para a passarela uma moda que transita entre upcycling, sensualidade, cultura pop e muita personalidade e que também já vestiu alguns dos principais nomes da música brasileira.
Esse caminho, porém, não nasceu de uma fórmula pronta. Antes mesmo de saber que o que fazia poderia ser chamado de upcycling, Gui já desmontava peças, aproveitava sobras e enxergava novas possibilidades no que tinha em mãos. Um olhar que acompanha o Estúdio Traça até hoje e ganha um novo capítulo em setembro, quando a marca realiza seu primeiro desfile solo.
No novo Feito no Brasil, conversamos com Gui sobre algodão, denim, figurino e uma maneira de pensar moda em que sustentabilidade, desejo e experimentação podem, e devem, ocupar o mesmo espaço.
SdA. O upcycling faz parte do Estúdio Traça desde antes de você saber que esse processo tinha um nome. O que trabalhar com o que já existe ensinou sobre a sua forma de criar?
Gui Amorim. Me ensinou a enxergar possibilidades. Acho que isso é o mais incrível de tudo, porque, quando a gente cria uma roupa do zero, imagina mil coisas. Quando estou criando a partir de outra roupa, preciso olhar para as possibilidades que aquela peça me oferece.
Se quero fazer alguma coisa, preciso pensar: será que o tecido vai permitir? Se não vai, o que eu posso fazer? Trabalhar com o que já existe exige um olhar mais realista. Você precisa enxergar a peça, entender sua estrutura, o material e os acabamentos para pensar no que pode fazer com ela.
Hoje também faço o caminho contrário: às vezes desenho primeiro e depois quebro a cabeça para encaixar aquilo na peça. Meu processo criativo acontece dessas duas maneiras. Criar a partir de algo que já está pronto faz você olhar para a roupa de outro jeito.
SdA. O denim acompanha o Estúdio Traça desde o começo. Depois de tantos anos trabalhando com ele, o que esse material ainda oferece de novo para você?
Gui Amorim. Sou um grande entusiasta do denim e do jeanswear e tenho parcerias de longa data com várias tecelagens. Estou sempre acompanhando as inovações que elas trazem, seja em tecnologia, fibras, sustentabilidade ou uso da água.
Muitas vezes, essas tecnologias não são tão evidentes no produto final, mas estão no que existe por trás dele. Isso é o que me impulsiona. A indústria têxtil do denim está sempre ligada à inovação e pesquisando formas de atualizar esse material, que é um clássico.
Estar conectado a essas inovações me faz querer sempre mais. Estou sempre buscando novas referências e experimentações e trago tudo isso para o meu trabalho. Criar coisas novas também me impulsiona, então estou sempre nesse mecanismo de renovação.

– Casa de Criadores 54-
Julho/2024- Anhangabaú- São Paulo
Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite
SdA. Seu trabalho envolve muito corte, desconstrução e reconstrução. O que o algodão permite experimentar nesse processo?
Gui Amorim. O algodão permite errar. Acho que o grande lance é esse.
Quando a gente fala de um jeans 100% algodão, com uma gramatura pesada de 10, 11, 12 ou 13 onças, estamos falando de um tecido resistente, que suporta beneficiamentos químicos, estonagem com pedra, lavagens, aquecimento e resfriamento.
Nesse caso, o algodão permite que a gente erre e faça de novo. Outros materiais nem sempre oferecem essa possibilidade, porque existe um risco maior de marcar ou rasgar.
O algodão permite errar, e isso é muito mágico para quem está criando.
Aqui eu manteria a repetição de “o algodão permite errar”. Ela não me incomoda porque funciona quase como uma tese da resposta: ele abre com a frase, explica por quê e volta a ela na conclusão. Tirar a última ocorrência diminuiria a força da fala.

-Casa de Criadores #51
Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite
dez/2022
SdA. O Estúdio Traça foge daquela imagem minimalista e neutra muitas vezes associada à moda responsável. Como você equilibra sustentabilidade, desejo e experimentação?
Gui Amorim. Essa é uma pergunta que nunca me fizeram, mas sobre a qual sempre pensei. A identidade da minha marca surgiu muito antes de eu entender que ela era sustentável e que os processos que eu adotava, desde a modelagem até a redução de descarte, também eram.
No meu primeiro desfile, por exemplo, usei um jeans que não precisava de lavanderia. Acho muito peculiar o Estúdio Traça ter essa cara tão fancy, com pele, modelagens curtas e sensualidade e, ao mesmo tempo, dialogar com essas tecnologias.
Mas isso é muito natural para mim. Até o apartamento onde moro foi mobiliado com peças garimpadas em brechós e bazares. Não foi algo que montei para fazer marketing, faz parte de quem eu sou de verdade. Gosto desses ambientes, reutilizo muitas coisas e também tento fazer isso quando compro roupas e sapatos.
Quando a gente pensa em uma marca sustentável, ainda existe essa ideia de uma estética mais clean. Mas tudo o que acontece no Estúdio Traça é muito real e faz parte de quem eu sou. No fim, tudo o que é consumido vai gerar algum tipo de descarte, seja uma roupa verde, bege ou uma roupa que brilha. Acho que estou nesse mundinho das roupas que brilham.
SdA. Você já vestiu nomes como Anitta, Pabllo Vittar, Gloria Groove, Marina Sena e Ludmilla. O que muda no seu processo quando a roupa também ajuda a construir uma imagem no palco?
Gui Amorim. Quando a gente faz uma roupa para o palco, existe uma construção em conjunto. Normalmente temos uma reunião com o stylist ou, às vezes, eu falo diretamente com a artista.
É preciso pensar em questões muito práticas. A roupa pode precisar de um espaço para colocar o equipamento do microfone. Se a artista vai dançar, precisa permitir movimento. Se é uma pessoa que pula muito, roda ou cai no chão, não dá para colocar uma roupa cheia de coisas. A gente precisa olhar para tudo isso quando pensa em uma roupa de palco.
Mas o que muda mesmo é o tempo. Uma roupa que às vezes demoraria um mês para ficar pronta precisa ser feita em três a cinco dias quando temos esse tempo.
As ideias também precisam caber dentro desse prazo. O figurino é uma grande escola para mim, porque você precisa otimizar tudo e fazer as coisas acontecerem em um tempo em que normalmente elas não foram feitas para acontecer.
SdA. Em 15 de setembro, o Estúdio Traça terá um desfile solo ao lado de parceiros como Serg Denim, Senac e Levi’s. O que esse momento representa para a marca e o que podemos esperar dessa nova fase?
Gui Amorim. Esse desfile vai ser um grande momento, principalmente porque viemos de dez desfiles na Casa de Criadores. Não estamos saindo de lá o Estúdio Traça faz parte da Casa de Criadores, mas, por uma questão comercial da marca, precisávamos antecipar esse desfile, pensando em venda, produto e produção.
Será nosso primeiro desfile solo e vai trazer um Estúdio Traça talvez mais maduro, que começa a dialogar com outros corpos. Teremos uma linha direcionada para corpos masculinos. Obviamente, roupa não tem gênero, mas estamos pensando na volumetria do corpo masculino e teremos essa inserção na coleção.
Ter Levi’s e Serg Denim com a gente também é muito importante. São parceiros com quem já temos uma relação de longa data, que apoiam a marca, caminham conosco, querem nos ouvir e também nos levam para outros projetos.
Vai ser um momento especial para a história que estamos construindo e também para assumir um posicionamento mais comercial, com produtos mais consumíveis. Vamos lançar uma linha de jeanswear mais comercial. Não queremos perder nossa característica autoral e underground, mas queremos trazer uma pitadinha de comercial também. Queremos furar um pouco a bolha.

SdA. Se você pudesse vestir uma personalidade brasileira que representasse o espírito do Estúdio Traça, quem seria e por quê?
Gui Amorim. Acho que não existe uma pessoa que reflita inteiramente o espírito do Estúdio Traça. A marca é muito múltipla, então são várias pessoas e características que ajudam a construir esse espírito. Às vezes, uma pessoa tem mais de uma dessas características, outra tem apenas um detalhe.
O Estúdio Traça pode vestir um look mais conceitual e depois fazer um look mais show, mais festa. Ao mesmo tempo, também tem uma roupa que funciona casualmente. São muitos espíritos que permeiam a marca.
No Brasil, acho que já trabalhei com todas as pessoas de quem gosto. Todas aquelas que eu poderia vestir e que têm uma identificação com a marca, de alguma forma, eu já vesti.
Internacionalmente, ainda não fui muito explorado, mas adoraria. Tenho algumas artistas de quem gosto muito, como Lily Allen e Lady Gaga.
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