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algodão & sustentabilidade

Da fralda à caminhonete: os subprodutos do algodão

30 de julho de 2026 | 0

Além da fibra das roupas, os resíduos se transformam em subprodutos

Quando um bebê nasce, os pais costumam fazer duas contas. Quantas mamadeiras serão necessárias e, principalmente, quantas fraldas vão embora até o desfralde. Como mãe de um menino de um ano e meio, posso dizer que essas respostas são bem importantes, ainda mais para pais de primeira viagem, como é o meu caso. A gente pesquisa marca, tamanho, absorção, conforto, se é antialérgico, mas dificilmente paramos para pensar de onde vem aquele material macio, que passa praticamente 24 horas por dia em contato com a pele do bebê.

Mas agora, nesta coluna, lhe convido a viajar comigo na linha do tempo, para que entre memórias e saudades, possamos entender juntos como o algodão é presente (e importante) no nosso dia e a gente nem se dá conta disso.”

Mas agora, nesta coluna, lhe convido a viajar comigo na linha do tempo, para que entre memórias e saudades, possamos entender juntos como o algodão é presente (e importante) no nosso dia e a gente nem se dá conta disso. Ou melhor: como os subprodutos do algodão também fazem parte dessa história.

As fraldas são apenas o começo. Logo nos primeiros dias de vida vem outra recomendação clássica dos pediatras: prefira peças 100% algodão. A explicação faz todo sentido. A pele do recém-nascido é mais fina, sensível e está aprendendo a exercer sua função de proteção. Fibras naturais ajudam na respirabilidade, reduzem o atrito e proporcionam mais conforto. É por isso que o algodão costuma ser a primeira matéria-prima a vestir um bebê.

É ela que aparece nas mantas,  lençóis do berço, toalhas de banho, nos bodies e nas calças. Aliás, mal sabem os pequenos que depois, adultos, vão escolher, por conta própria, muitas peças de algodão, por causa da versatilidade e do conforto.

Só que essa preocupação com fralda e vestuário logo divide espaço com outra batalha: a introdução alimentar. Às vezes até um pãozinho vira motivo de negociação. Mas uma manteiga vegetal, feita com o óleo extraído do caroço, pode ajudar a convencer até os mais resistentes.

Mas na infância tem tombo e cicatriz


Ser criança é sinônimo de aventura. Mas a aventura, normalmente, termina de um jeito: com um machucado. Todo mundo guarda alguma lembrança de um joelho ralado, um tombo de bicicleta, uma dividida no futebol ou uma queda na piscina. A cena é parecida. Alguém chega, consola o choro, e logo pega uma gaze, um pedaço de algodão e faz um curativo.

O curioso é que esses produtos não são feitos do mesmo material que virou roupa. Depois que a pluma principal é retirada, ainda permanecem pequenas fibras na semente. Elas recebem o nome de línter ou fibrilha e possuem altíssima pureza de celulose. Esse subproduto do algodão dá origem a diversos produtos utilizados diariamente na área da saúde, como o algodão hidrófilo e a gaze hidrofílica.

Aqui vale uma pausa para uma curiosidade interessante. Esses produtos são chamados de hidrófilos porque hydro significa água, e philos, é aquele que tem afinidade. Traduzindo: ele é “amigo da água”. Diferentemente da fibra usada nos tecidos, o material hidrófilo passa por um processamento que potencializa a capacidade de absorver líquidos, característica essencial para curativos, medicamentos e produtos de higiene. 

E depois de muitos tombos, que tal pularmos alguns anos lá na frente e chegar na adolescência? 

E se eu te disser que o algodão ajuda até na autoestima?

Sabe aquela música que diz: “Porque um joelho ralado dói bem menos que um coração partido”? Pois é. Essa fase também chega. Dizem que é a mais desafiadora. Como mãe, confesso que eu já estou me preparando.

Além de ter que lidar com o coração partido, chegam as inseguranças da adolescência. Mudança repentina da voz para os meninos e do corpo para as meninas. Nessa hora, um lookinho novo e uma skincare em dia ajudam a melhorar a auto-estima. Do óleo são feitos sabonetes e hidratantes. Já a pluma contribui no guarda-roupas. Pode ser um jeans que nunca decepciona ou um moletom que traz pertencimento. Alguém conhece um adolescente que não use moletom? 

E, quase sem perceber, chega a fase em que qualquer desculpa vira churrasco. Basta uma mensagem no grupo dizendo “bora assar uma carne”? Pronto. O encontro está marcado. O motivo não importa. Passei na faculdade, vamos ver um jogo de futebol ou simplesmente “sextou”. 

Ah, não! Vai me dizer que tem algodão até na carne?

Não é que tem? Mas não assim como você está imaginando, em cima da brasa. Para entender do que eu estou falando, vamos voltar, mais uma vez, ao beneficiamento.

Depois da extração do óleo, sobra um material rico em proteína conhecido como farelo ou torta de algodão. Mais um entre os diversos subprodutos do algodão que ganham novas funções no dia a dia. Segundo estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), esse coproduto pode apresentar de 30% a 40% de proteína bruta, tornando-se um ingrediente importante na alimentação de bovinos e ovinos, além de ração para aves e suínos. Então, o algodoeiro está presente de forma indireta, mas ainda assim, dentro da cadeia produtiva da pecuária, até chegar lá na outra ponta, ou melhor, na churrasqueira.

E se for pagar a conta do churrasco em dinheiro, lá está o algodão de novo. As cédulas utilizam uma celulose especial obtida do línter, aquelas fibras curtinhas que permanecem na semente após a retirada da pluma. É ela que ajuda as notas a suportarem o tempo, as milhares de dobras e a evitar falsificações.

Decorando o apê com o algodão

Mas é lá na vida adulta, por volta dos 30 anos, que começamos a dar atenção ao conforto do lar. Investimos em decoração para deixar a casa com a nossa cara. Pode ser um tapetinho para facilitar o dia a dia. E que tal uma pintura na parede para renovar o ambiente? Pois pode acreditar, até nisso tem algodão. Enquanto a fibrilha dá origem a tapetes e carpetes, oferecendo maciez e durabilidade, o óleo, por ter alta estabilidade e trabalhar bem com propriedades químicas, está presente na formulação de algumas tintas.

E para encerrar, vamos falar de sonhos? Quem nunca se imaginou dirigindo uma caminhonetona? Se você fez agronomia, então, é bem provável que esse sonho tenha começado lá na faculdade.

Boa parte dessas picapes utiliza motores movidos a diesel. E é aí que o algodão entra em cena mais uma vez. O óleo extraído do caroço pode ser transformado em biodiesel, um combustível renovável utilizado nas misturas com diesel derivado do petróleo. Mais uma vez, os subprodutos do algodão mostram como é possível aproveitar integralmente a cultura, agregar valor à produção e contribuir para uma matriz energética mais sustentável.

E só colocando o agro na conversa, as máquinas agrícolas também utilizam biodiesel. E tem mais um ponto.  O lubrificante usado na manutenção dos maquinários, pode ser fabricado com óleo extraído da semente.

Bom, assunto explicado sobre como o algodão está presente na caminhonete, você já pode colocar os seus óculos de sol e pegar estrada. Ah, espera aí. Os óculos são feitos de acetato de celulose, um material que pode ser extraído da fibrilha. Por essa você não esperava, não é?

Os subprodutos do algodão mostram que desta fibra se aproveita até o caroço

E não é força de expressão. A frase faz referência ao ditado popular de que “dessa fruta se aproveita até o caroço” e define uma cadeia que transforma todos os seus subprodutos em novas oportunidades de negócio. Quando a gente olha para um pé de algodão no campo, é difícil imaginar quantas histórias cabem dentro daquela maçã branca. Os subprodutos do algodão são a prova de que praticamente nada se perde ao longo desse processo.

E quantas histórias existem entre a primeira fralda e a tão sonhada caminhonete? Essa retrospectiva na timeline faz a gente refletir que a felicidade é feita de pequenos momentos, que parecem comuns, mas um dia se transformam nas lembranças mais valiosas que carregamos. Que a gente possa estar presente em cada instante e aproveitar o conforto e as memórias que a vida (e o algodão) nos proporcionam. Nos encontramos na próxima coluna.

Até lá!

 


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