Tem coisas que passamos para as próximas gerações por costume ou necessidade; outras, por amor. Quando esses motivos se unem, o ensinamento pode virar o fio condutor de uma família. É o caso dos Shimohira.

Haruyoshi Shimohira chegou do Japão em 1957 com sua esposa Kazuko, ambos com pouco mais de 20 anos de idade e a vontade de se estabelecerem no Brasil. No início da década de 1960, em Ituverava/SP, já começaram as primeiras lavourinhas da cultura que ajudou a construir o futuro da família: o algodão.

Quem reconstrói o fio dessa história é Paulo Kenji Shimohira, de 56 anos, filho do casal que, hoje, toca os negócios.

Paulo é engenheiro agrônomo e assumiu as lavouras em 1987, dois anos depois de terminar a graduação. “Fiz estágios na Bahia, em Goiás, no Mato Grosso, mas meu pai e meu irmão me chamaram e preferi voltar para casa”, conta o produtor, cujo irmão, Mário, também participa dos negócios. As propriedades e áreas arrendadas para plantio do algodão e outras culturas ficam, majoritariamente, em Itumbiara/GO, cidade para onde a família se mudou no início dos anos 1970.

“Quando eu me formei, meu pai plantava 400 hectares em três áreas. Fomos aumentando, comprando, arrendando e produzindo”, relembra Paulo, que só viu crescer a produção desde então. “Hoje estamos com uma área de 18 mil hectares, dos quais 6,3 mil são dedicados ao algodão. Produzimos em torno de 10,5 mil toneladas dessa fibra”, completa.

Apesar de ter estudado e se profissionalizado, Paulo afirma que aprendeu muito com seu pai sobre o trabalho no campo e com o algodão. “Aprendi muito com meu pai vendo o amor que ele tem pela cultura. Sempre gostamos do trabalho com o algodão e fomos aprendendo cada vez mais com novas tecnologias, tentando produzir mais e melhor”, comenta.

E esse amor pela pluma não parou em Paulo. Seu filho Leonardo, hoje com 27 anos, estudou administração de empresas em São Paulo e retornou à Itumbiara para levar em frente as lavouras. “Agora eu jogo os ‘abacaxis’ para ele. Cobro bastante para eu me aposentar logo”, conta Paulo entre risadas. Brincadeiras à parte, o filho parece levar jeito para os negócios: “está indo bem”, comenta o pai. Do casamento com a esposa, Silvia, além de Leonardo completam a família a filha Amanda (23 anos), e Rafaela (22), que é mãe de Helena (1).

Os avós Haruyoshi e Kazuko Shimohira com os netos Leonardo, Amanda e Rafaela e a bisneta Helena. Foto cedida por Paulo Kenji Shimohira

Paulo transmite para seu filho os ensinamentos que teve com o pai. “Quanto à produção, tento passar que devemos buscar alta produtividade com o melhor preço possível. É importante sabermos vender bem, porque trabalhar com arrendamento exige uma rentabilidade acima da média. E é preciso qualidade, sempre, porque o mercado está muito competitivo”, avalia.

Ele ainda destaca que os valores da família são muito importantes para o negócio: pontualidade e honestidade. O bom nome no mercado é algo que vem sendo construído com o tempo e é muito importante no meio.

Além de produtor, Paulo participa das associações relativas à produção da fibra. Foi um dos primeiros presidentes da AGOPA, Associação Goiana de Produtores de Algodão, há quase 20 anos e hoje é tesoureiro. Fez parte da Abrapa por 15 anos e credita à Associação Brasileira de Produtores de Algodão uma posição importante para os negócios. “A Abrapa é um parceiro fundamental. É graças ao trabalho que fizemos e é feito hoje que conquistamos mercados mundo afora”, afirma Paulo, que faz questão de lembrar que o Brasil é o segundo maior exportador da fibra no mundo, principalmente para países asiáticos.

Os desafios do trabalho no campo são – e sempre foram – inúmeros. Mas a família Shimohira vem se preparando para tudo que vem pela frente. Com pai e filho juntos na lavoura, os obstáculos podem ser superados, sempre inovando e produzindo com qualidade, a partir da base dada pelas primeiras gerações.

E falando em primeiras gerações, o algodão parece ter sido a receita da longevidade para o senhor Haruyoshi Shimohira. “Meu pai está ótimo. Tem 88 anos e ainda dirige. Ele vive perguntando sobre os negócios, sempre dá uma passada no escritório para saber como estamos indo. Tem hora que ele é mais atento que nós”, brinca Paulo.