
Tia Ró Fuxiqueira: o fuxico como memória viva da moda brasileira
Entre lembranças familiares, fazer manual e tempo dedicado à criação, Ró Morais, atriz, empreendedora e multiartista baiana, construiu uma marca que transforma retalhos em roupa, afeto e permanência. Com o fuxico como linguagem central, o trabalho na Tia Ró Fuxiqueira nasce do gesto repetido à mão, do cuidado com o detalhe e da valorização de saberes que atravessam gerações.
Mais do que uma expressão estética, a marca vem ganhando reconhecimento no circuito da moda autoral e artesanal brasileira, especialmente entre públicos que valorizam o algodão, o reaproveitamento têxtil e o tempo da criação como parte essencial do processo. As peças da Tia Ró Fuxiqueira reafirmam o feito à mão como prática contemporânea, conectando memória, identidade e responsabilidade em cada criação.
Nesta entrevista, a estilista-artesã compartilha como a marca surgiu, a importância dos materiais e processos que escolheu para construir seu trabalho, os desafios de reconhecimento do artesanato desde a origem e os caminhos que imagina para expandir esse saber manual dentro e fora do Brasil.
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SdA. Como nasceu a Tia Ró Fuxiqueira? O que da sua história pessoal está presente no trabalho que você faz hoje?
TR: A Tia Ró Fuxiqueira nasceu a partir de uma experiência muito marcante. Durante o período pandêmico, enquanto eu fazia um curso de design de moda, tive uma visão muito clara: eu criava uma peça totalmente em fuxico. Aquela imagem ficou registrada na minha mente como uma fotografia, mas eu não conseguia traduzi-la no papel. Tentei fazer alguns croquis, todos muito simples, porque desenhar sempre foi uma dificuldade para mim.
Com doações de resíduos têxteis, comecei a produzir algumas peças, mesmo sem nenhuma experiência prévia em costura. Fiz biquíni, top, saia, camisa. Mas havia uma peça específica que não saía da minha cabeça, e isso passou a me inquietar. Mesmo sem desenho ou referência, comecei a confeccioná-la. Era como se ela se conduzisse sozinha. Bastava fechar os olhos e me concentrar que a imagem aparecia completa, e, fuxico por fuxico, a roupa ganhava forma. Mais tarde, esse vestido foi destaque em uma matéria da revista Ela, do jornal O Globo.
Minha trajetória pessoal atravessa a marca de muitas maneiras. Uma delas vem das lembranças da minha avó, que não era costureira profissional, mas costurava à mão as roupas dos filhos, fazia calcinhas e cuecas para os netos com pedaços de tecidos variados. O fuxico, naquela época, era algo discreto um paninho sobre a estante.
Hoje, quando fecho os olhos, consigo vê-la com nitidez: o vestido azul de florzinhas em algodão com acabamento em renda, o cabelo curto preso para trás, os dedos pequenos, a sandália, o jeito de falar. É desse lugar de lembrança e afeto que nascem muitos dos looks criados de forma independente na Tia Ró Fuxiqueira.
SdA. O fuxico é a principal técnica do seu trabalho. O que ele significa para você e por que o escolheu como base da sua criação?
TR: O fuxico representa, para mim, cuidado, pertencimento, ressignificação, conexão, infância, colo, proteção e saudade. Ao mesmo tempo, carrega persistência, força, resistência e conquista.
Eu não costumo dizer que fui eu quem escolheu o fuxico. Sinto que foi o contrário como se essa técnica, ou o que ela carrega de memória coletiva, tivesse me encontrado. Eu nunca tinha costurado, nunca tinha feito fuxico antes. De um dia para o outro, passei a criar arte vestível com essa técnica, e isso me faz sentir conduzida por algo maior.
SdA. Você trabalha muito com algodão, tecidos reaproveitados e feito à mão. Por que esses materiais e processos são importantes no seu trabalho?
TR: Esses materiais e processos são importantes porque expressam valores que estão no centro do que eu faço. O algodão, os tecidos reaproveitados e o trabalho manual dialogam com conforto, lembrança, cuidado e responsabilidade.
Escolher o reaproveitamento é uma decisão consciente. Já o fazer manual, especialmente o fuxico, é onde tudo se organiza. Ele não é apenas uma técnica, mas um conhecimento transmitido ao longo do tempo um gesto repetido sem ser igual, feito com intenção, paciência e dedicação.
SdA. Hoje vemos o artesanato e o feito à mão ganhando espaço na moda. Na sua opinião, o que ainda falta para esse tipo de trabalho ser mais valorizado desde a origem?
TR: Apesar de alguns avanços, ainda falta reconhecer o artesanato como saber, e não apenas como estética ou tendência. Muitas vezes, o feito à mão é valorizado só no resultado final, mas pouco se reconhece o conhecimento envolvido e as pessoas que sustentam esse processo.
É necessário respeitar os caminhos, os prazos e compreender que o artesanal não é simples, fácil e nem sempre é terapia. Ele é resultado de técnica, qualidade e herança cultural. Quando esse trabalho parte de corpos historicamente invisibilizados como o meu, de uma mulher preta, sem diploma universitário essa desvalorização se intensifica.
Valorizar o feito à mão é dar visibilidade a quem faz, remunerar de forma justa, respeitar o tempo da criação e entender que cada peça carrega história e memória.

SdA. Se você pudesse vestir um artista ou uma celebridade, quem seria e por quê?
TR: Carolina Maria de Jesus! Carolina transformou restos de vida em literatura, assim como eu transformo sobras de tecido em arte vestível. Mulher negra, catadora de papel que se tornou escritora, fez do que era descartado uma obra potente. Seu livro Quarto de Despejo nasceu de cadernos encontrados no lixo.
É nesse ponto que nossas trajetórias se encontram. Assim como Carolina, sou uma mulher preta. Comecei a trabalhar aos 10 anos como empregada doméstica, passando por funções como diarista, cuidadora, babá e cozinheira. Aos 45 anos, encontrei na arte um lugar de transformação.
Hoje sou funcionária pública terceirizada, cozinheira de escola estadual, atriz, modelo e estilista artesã que transforma tecidos descartados muitas vezes vistos como lixo em fuxico vestível. Carolina Maria de Jesus é memória, resistência e voz feminina negra que atravessa gerações. Vestir uma mulher como ela seria uma homenagem profunda.
SdA. O que você gostaria que as pessoas sentissem ao vestir uma peça da Tia Ró Fuxiqueira? E o que você imagina para os próximos passos da marca?
TR: Quero que as pessoas sintam muito mais do que estar vestindo uma roupa. Que se sintam acolhidas, levadas a um lugar de afeto, carinho, respeito e boas lembranças. É assim que me sinto enquanto costuro eu me transporto para esse espaço de cuidado, e é essa energia que coloco em cada peça.
O que imagino adiante é construir esse caminho de forma coletiva. Ter uma equipe para dividir o trabalho e as conquistas, já que hoje a marca funciona como uma “eu equipe”. Ter um ateliê, uma loja para vendas presenciais e um espaço dedicado à transmissão desse saber do fuxico para meninas, mulheres e todas as pessoas que desejarem aprender.
Também desejo ocupar passarelas como a Casa de Criadores e a SPFW, levar a marca para fora do país, começando pelo continente africano, em Moçambique, e seguir ampliando esses horizontes — inclusive sonhando com Paris.
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