
Nina Brasileira: algodão como origem e identidade
Em 2020, vivíamos um dos momentos mais incertos da nossa geração. O que parecia durar alguns meses se estendeu por anos, redesenhando rotinas, prioridades e formas de consumo. Em meio a esse cenário de pausa forçada, muitas ideias nasceram dentro de casa. A da Nina Brasileira surgiu nesse contexto: uma marca autoral, versátil e construída a partir de uma relação profunda com o algodão.
Fundada por Janaína Giongo e desenvolvida em parceria com a designer Júlia Novaes, a Nina começou com o loungewear, mas rapidamente expandiu seu território. O algodão brasileiro deixou de ser apenas matéria-prima e passou a ser ponto de partida para uma narrativa que mistura memória, técnica, contraste geracional e produção consciente.
Nesta conversa para o Feito no Brasil, elas compartilham como a marca se constrói entre campo e cidade, entre maturidade e experimentação, entre alfaiataria e imperfeição.
SdA. A Nina carrega a história de vocês? Como isso aparece na marca?
Nina: A gente costuma dizer que a Nina começou oficialmente em 2020, mas, na prática, ela começou muito antes. A Janaína cresceu em meio à produção de algodão, acompanhando de perto essa matéria-prima desde pequena. Isso criou uma relação que não é apenas profissional, é afetiva. Quando decidimos fundar a marca, o algodão já estava no centro de tudo. Ele não entrou como tendência ou estratégia, ele sempre esteve ali. É uma fibra que carrega origem, experiência e repertório. Trabalhar com ela é, de certa forma, honrar essa trajetória.
SdA. A marca é construída a partir do encontro de duas gerações. Como esse contraste influencia as coleções e a forma como vocês enxergam a mulher Nina?
Nina: Nós somos muito diferentes, e isso é o que fortalece a marca. A Janaína traz a maturidade, a vivência e um olhar funcional de quem já passou por muitas fases. Eu trago o repertório urbano, a direção de arte, a inquietação estética. Esse encontro aparece nas coleções. Temos alfaiataria estruturada, mas também peças amplas, oversized, detalhes que brincam com o avesso e com a imperfeição. A mulher Nina transita entre casa e rua, entre o concreto e o orgânico. Ela busca conforto, mas também quer presença.
SdA. O algodão é a base das peças da Nina, da alfaiataria ao vestido conceitual feito com algodão bruto. O que torna essa fibra tão potente dentro da construção da marca?
Nina: O algodão nos dá liberdade. Ele pode ser leve ou estruturado, fluido ou arquitetônico. Podemos trabalhar cortes retos, volumes amplos ou peças conceituais.
Um dos momentos mais simbólicos para nós foi o vestido construído com floquinhos de algodão ainda sem tratamento, aplicados manualmente, nó por nó. Ali, a matéria-prima deixou de ser apenas tecido e passou a ser linguagem. É essa capacidade de atravessar o tempo e assumir diferentes formas que nos interessa.

SdA. A Nina trabalha com produção reduzida e só desenvolve novas coleções quando a anterior já foi vendida. Por que escolher esse ritmo?
Nina: Porque acreditamos que roupa precisa durar. Produzimos, em média, até 20 peças por modelo. Não faz sentido acelerar um processo que, para nós, é sobre permanência.
Nossa alfaiataria é pensada para atravessar anos e até gerações. Queremos que as peças sejam usadas muitas vezes, que envelheçam bem e que possam ser passadas adiante. Isso conversa com a forma como enxergamos consumo e responsabilidade.
SdA. Como vocês definem o que é ser brasileira dentro da moda contemporânea?
Nina: Para nós, ser brasileira na moda é o exercício diário de criar um espaço seguro e íntimo para desenvolver a própria verdade. É olhar para a nossa história, memória, cultura e vivências e construir a partir disso, com honestidade.
É falar sobre desejos e também sobre fragilidades, pensando nos diferentes corpos e rotinas que compõem o cotidiano brasileiro. É resgatar símbolos que nos pertencem, mas traduzindo isso em conforto real, versatilidade no guarda-roupa, flexibilidade e durabilidade.
Acreditamos que é assim que nascem peças contemporâneas brasileiras: com memória, imaginário, qualidade e presença. Seja no minimalismo mais delicado ou no nosso maximalismo quase guerrilheiro, existe sempre uma verdade ali.
SdA. Se vocês pudessem vestir uma artista ou personalidade que represente o espírito da Nina, quem seria e por quê?
Nina: A Bela Gil representa muito do espírito da Nina. Ela reúne poesia e posicionamento, cuidado e firmeza. É uma mulher que fala de saúde, consciência e gentileza sem perder a leveza. Existe nela uma mistura de serenidade e coragem que dialoga com o que buscamos na marca: uma presença que não precisa ser estridente para ser potente.
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Nos últimos anos, a Nina consolidou seu crescimento, participou da pop-up do SPFW após passar por curadoria e integrou oficialmente o movimento Sou de Algodão. Mais do que reconhecimento, esses passos reforçam a coerência de uma marca que constrói identidade a partir da matéria-prima e daquilo em que acredita.
Conheça mais sobre o trabalho da estilista parceira Nina Brasileira nos seus canais oficiais: @nina.brasileira e usenina.com.br. Na nossa vitrine de marcas parceiras você encontra outras empresas que constroem uma moda mais responsável ao nosso lado.

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