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empreendedorismo

Inbordal: o bordado filé que nasce das lagoas de Alagoas

18 de março de 2026 | 0

Entre as lagoas Mundaú e Manguaba, em Alagoas, uma tradição atravessa gerações e transforma fios de algodão em memória viva. O bordado filé é uma técnica artesanal profundamente ligada à história da região e ao cotidiano das comunidades lacustres, onde mulheres mantêm viva uma prática transmitida de geração em geração.

É nesse território que atua o Inbordal – Instituto do Bordado Filé da Região das Lagoas Mundaú Manguaba, que reúne mais de 30 artesãs dedicadas à preservação e valorização dessa técnica singular. Mais do que um ofício, o bordado filé representa identidade cultural, geração de renda e continuidade de um saber tradicional.

Nesta conversa com Petrucia Santos, artesã associada colaboradora do Inbordal, para o Feito no Brasil, conhecemos a origem dessa técnica, o processo coletivo de criação e como o bordado filé se reinventa ao longo do tempo sem perder suas raízes.

SdA. O bordado filé faz parte da história da região das lagoas Mundaú e Manguaba há muitas gerações. Como essa tradição chegou até vocês e o que ela representa hoje para as mulheres do Inbordal?

 Gorete Maria artesã, associada colaboradora do INBORDAL.
Gorete Maria, artesã, associada colaboradora do INBORDAL.

Petrucia: O bordado filé, ou filet brodé, é um bordado europeu que chegou ao Brasil através dos colonizadores e também, possivelmente, por meio da educação de mulheres em conventos cristãos durante o período colonial e imperial.

Com o tempo, essa técnica foi se disseminando entre diferentes grupos sociais e acabou se consolidando como uma importante fonte de renda para parte da população que hoje forma a base da pirâmide social e econômica do país, especialmente no Nordeste.

Nas comunidades lacustres ao redor das lagoas Mundaú e Manguaba, o bordado filé representa até hoje um complemento fundamental de renda e uma atividade profundamente ligada à identidade cultural da região.

SdA. O Inbordal reúne mais de 30 artesãs trabalhando juntas. Como funciona esse processo coletivo de criação e produção das peças?

Petrucia: No caso deste projeto específico, ele foi desenvolvido a partir de recursos de um Edital de Cultura através do PNAB – MinC, acessado pela consultora Marta Melo, arquiteta e designer de produto parceira da nossa instituição.

A proposta de utilizar elementos da nossa história arquitetônica partiu dela, mas o trabalho foi construído de forma coletiva, em uma troca constante de saberes. A inspiração veio do estilo barroco floral presente no Convento de Santa Maria Madalena da antiga Alagoas do Sul.

Flores, conchas, ramagens e outros elementos decorativos foram reinterpretados através do bordado filé, dando origem a peças de mesa posta que traduzem esse barroco em linguagem artesanal.

SdA. O algodão é a base do bordado filé. O que essa matéria-prima representa dentro dessa técnica e por que ela é tão importante para o trabalho de vocês?

Petrucia: O fio de algodão é o principal insumo do bordado filé. Ele é usado na malha ou rede que é confeccionada e esticada em um tear para, então, receber o bordado.

O próprio nome filé vem do francês filet, que significa rede. Na prática, trata-se de um bordado feito sobre uma rede de fios vazados.

Para bordar, utilizamos linhas semelhantes às usadas em crochê ou bordado livre. É uma técnica bastante singular, porque provavelmente é o único bordado realizado sobre uma rede de fios vazados. Outras rendas brasileiras utilizam estruturas diferentes, como o bilro ou o frivolité.

SdA. O bordado filé carrega uma tradição muito antiga na região das lagoas. Que lembranças ou histórias das gerações anteriores ainda vivem no trabalho de vocês hoje?

Petrucia Santos artesã, associada colaboradora do INBORDAL.
Petrucia Santos, artesã, associada colaboradora do INBORDAL.

Petrucia: Praticamente toda filezeira da região aprendeu a fazer a malha e o bordado com suas mães, avós, tias ou vizinhas da comunidade onde nasceu ou cresceu.

É uma atividade transmitida de geração em geração por meio do conhecimento tácito: aprende-se observando e fazendo junto com quem já domina a técnica. Não existem apostilas, livros ou revistas que ensinem a fazer o bordado filé.

Hoje, com as ferramentas tecnológicas disponíveis, também é possível acessar conteúdos e oficinas online, mas a essência do aprendizado continua sendo essa convivência direta entre quem ensina e quem aprende.

SdA. O Dia do Artesão marca também o lançamento de uma nova coleção do Inbordal. Como vocês pensaram essa coleção e o que ela busca comunicar sobre o bordado filé hoje?

Petrucia: No Dia do Artesão será realizado o pré-lançamento da nova coleção Barroco Floral, durante o evento ARTENOR, uma feira promovida pelo SEBRAE-AL para receber lojistas do Sudeste convidados pela instituição.

A perspectiva é ampliar o acesso a novos nichos de mercado que buscam produtos que combinam tradição e inovação. Nesta parceria, o Instituto também buscou valorizar pontos do bordado filé que vinham sendo menos utilizados pelas artesãs, justamente pelo tempo mais longo de execução.

Como se trata de peças voltadas para um público mais especializado, será possível produzir itens menores, mais elaborados e com maior valor agregado, garantindo que o trabalho cuidadoso das artesãs seja devidamente reconhecido e remunerado.

SdA. Se vocês pudessem vestir um artista ou uma personalidade brasileira com uma peça em bordado filé, quem seria e por quê?

Petrucia: Escolheríamos a Sonia Quintela. Ela construiu uma trajetória muito importante na valorização do artesanato tradicional brasileiro, atuando na gestão cultural, na pesquisa e no desenvolvimento de projetos voltados às comunidades artesãs.

Sonia sempre defendeu que o artesanato deve ser reconhecido como patrimônio cultural, fonte de identidade e também como uma atividade econômica capaz de gerar desenvolvimento para diferentes regiões do país. Para ela, o artesanato não pode ser visto apenas como objeto decorativo ou souvenir, mas como expressão de conhecimento, memória e modo de vida.

Além disso, sua trajetória é muito simbólica. Ela foi diretora da Gucci no Brasil, mas decidiu deixar o conforto de uma grande multinacional para se dedicar ao trabalho da ONG ArteSol — Artesanato Solidário. A instituição atua justamente na salvaguarda do artesanato de raiz e no fortalecimento humano e econômico das comunidades envolvidas em sua produção.

Por tudo isso, acreditamos que vestir Sonia Quintela com uma peça em bordado filé seria também uma forma de reconhecer alguém que há tantos anos trabalha pela valorização do artesanato brasileiro.

 

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O trabalho do Inbordal reforça a importância de preservar técnicas tradicionais que fazem parte da história cultural brasileira. Ao mesmo tempo em que mantém vivo o bordado filé, o Instituto também busca novos caminhos para que esse saber continue relevante, valorizado e economicamente sustentável para as mulheres que mantêm essa tradição viva.

Conheça mais sobre o trabalho do Instituto do Bordado Filé nos seus canais oficiais: @inbordal e http://inbordal.org.br/. Na nossa vitrine de marcas parceiras você encontra outras empresas que constroem uma moda mais responsável ao nosso lado.


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