Uma caixa de lenços guardados no fundo de um armário fez com que Marina Repka desse os seus primeiros suspiros pelo desejo de colecionar roupas de seus antepassados.

A caixa, que era de propriedade da sua mãe, continha lenços ganhos de presente vindos de diversos cantos do mundo. “Nos anos 80 minha mãe usava muitos lenços e eu pensava que quando eu crescesse eu queria usá-los. Ela usava de todas as maneiras e todo mundo que viajava trazia uma peça de presente para ela, porque sabia desse gosto pela peça. Nos anos 90 ela me deu em média 30 deles e eu comecei a usá-los de todas as formas”, comenta.

A partir daí, a cada vez que ela se vestia com alguma dessas peças, alguém da sua família lhe contava uma história carregada de emoção sobre o lenço que ela vestia. “As pessoas me paravam e diziam quando haviam dado de presente aquele lenço para minha mãe e de onde trouxeram, com isso elas começaram a me presentear também com esse tipo de adereço”, diz.

Ela traz na sua memória momentos quando ainda era muito criança e, nas férias, visitava a casa dos seus avós no Sul do país. Como no inverno a região é muita gelada, sua avó guardava parcas de outros familiares para que os netos mais novos pudessem usar quando fossem visitá-la nessa estação. “Mesmo sendo peças masculinas eu usava esses casacos e, toda vez que eu os vestia, escutava alguém contar uma história. A partir disso, quando eu chegava no Sul, escolhia peças que tinham sido do meu tio ou do meu irmão para que alguém me contasse alguma história que remetesse ao passado”, conta.

Sua mãe sempre teve guardadas em seu armário peças antigas, não pelo simples fato de usar a roupa, mas sim pelo tecido que era empregado em determinadas peças, fazendo com que ela as customizasse para que ficassem atuais e pudessem ser usadas novamente.

Mesmo com o intuito principal de guardar uma peça antiga pela bela textura e qualidade do tecido, sua mãe inconscientemente também se ligava às questões do passado, pois toda vez que a filha se vestia de algo antigo ela contava a história daquela peça.

Desconstruir o passado para construir o presente foi o que mais chamou a atenção de Marina ao ir adquirindo essas peças que começaram a ser doadas para ela, presentes que foram vindo das tias, tios, avós e da própria mãe. “Eu fui construindo essas histórias conforme eu usava essas peças, e as pessoas iam me vendo e contando as passagens de cada uma delas”.

Quando ela se reuniu com sua mãe para escolher algumas peças de antepassados se deu conta de que a maioria delas não precisava ser reformada, bastava apenas lavá-las e colocá-las para uso, uma das provas de que a moda é cíclica e sustentável.

Algumas peças de algodão do acervo dessa colecionadora são marcantes na vida dela e na da sua família, como um vestido branco de laise que foi usado pela sua mãe, por ela e agora mais recentemente transformado em um cropped e saia customizados para a primeira comunhão da sua filha Júlia, que já demonstra muito interesse em colecionar peças antigas também.

Outra roupa importante para ela é uma blusa amarela de crochê com linha de algodão que foi feita na década de 60 pela sua avó para a mãe dela, quando ela tinha apenas 15 anos. Ela encontrou essa blusa em 2012 no armário da mãe e, desde então, cada vez que usa sua mãe se emociona. “Essa peça minha mãe sempre teve carinho, nunca teve coragem de dar, ficava guardada no guarda-roupa porque não servia. Minha avó faleceu em 2011 e, no ano seguinte, encontrei essa peça. Foi quando minha mãe me contou a história dela e eu quis que ficasse comigo”, nos diz emocionada. Hoje, sempre que ela se veste com essa regata, os olhos de sua mãe se enchem de água.

Alguns atributos das peças são importantes para que ainda estejam intactas, mesmo após décadas de uso, como a durabilidade da fibra natural, além de proporcionar conforto e frescor por todas as gerações que as vestiram. Segundo Marina, a frase que ela nunca esquece foi uma dita pela sua avó: “O corpo precisa respirar”. Palavras sábias dessa senhora!

Algumas peças que hoje compõem o closet são mais velhas que a própria colecionadora que hoje tem 40 anos e, portanto, a ajudaram a resgatar um passado que talvez ela nunca tivesse acesso se não as usasse.

Marina hoje é dona orgulhosa dessa caixa de lenços vindos de países lindos espalhados pelo mundo, peças de seus ancestrais cheias de emoção, movimento e, principalmente, muitas histórias para nos contar e passar para as suas futuras gerações.