Ken-gá bitchwear. Você não leu errado. A marca nasceu para provocar – e tem cumprido sua função.

O nome foi, de fato, inspirado na palavra quenga e o “bitchwear” veio como trocadilho de “beachwear”, reafirmando a essência de subversão e trocando o pejorativo pela força que mora em mulheres autênticas.

“A Ken-gá é a mulher diferente, glamourosa. Quem assume essa alcunha são mulheres poderosas, que sabem o que querem”, diz Lívia Barros, uma das criadoras da marca, administrada por ela e sua sócia, Janaína Azevedo.

Entre as peças de maior repercussão estão os brincos que dizem por si: “Fora Temer”, “Sai Machista”, “Sai Fascista” em letras garrafais e cores neon, pendurados nas orelhas de mulheres de todo tipo, inclusive as famosas Pitty, Valeska Popozuda e Liniker.

A Ken-gá se posiciona. Critica os padrões impostos pela moda, o machismo, o fascismo, o autoritarismo, a homofobia e tudo o que quer tirar do indivíduo o direito de ser.

“Todo mundo tem o direito de vestir o que quiser”, nas palavras de Lívia.

A marca é representada, assim, por modelos plurais. Pessoas magras, gordas, brancas, negras, transexuais, travestis. Pessoas, e ponto. “A Ken-gá tem uma pegada feminina, mas é para todos. Todo mundo que quiser pode usar.”

Casamento gay no palco do último desfile? Teve sim! “São posições. Tudo o que nós fazemos é ligado a isso”, diz a criadora.

Identidade na criação

A história de Lívia com a moda foi pautada pelo cinema. Quando criança, assistindo a “E o vento levou”, se encantou pelos figurinos e começou a desenhar. Aos 17 anos entrou em um curso técnico voltado para a área e, depois, fez a faculdade de moda.

Já na universidade, prestou um concurso de criação para uma marca de jeans e conquistou o primeiro e o terceiro lugar. Pôde atuar, aprendendo a criar e costurar: “Eu me apaixonei! Fiz três looks sozinha!”.

Depois de formada, passou oito anos trabalhando fora da área de criação. A vontade de ter sua própria marca continuou sendo amadurecida, porém. Até dar vida à Ken-gá, em 2016: “Eu queria criar algo que não existisse. Que fosse a minha cara. A liberdade criativa está em tudo”.

Começou com moda praia – daí o trocadilho com “beach” – quando procurou um maiô dourado e não encontrou nada que não fosse de tamanho pequeno. “Faltava algo diferente!”, ela diz.

Hoje expande para o streetwear, com roupas e acessórios que seguem a mesma ideia de ousadia. Dourado, neon, estampas exclusivas, brilho, frases fortes estampadas nas camisetas.

Algodão e crítica social

O algodão é matéria-prima usada em grande parte das criações. “Criar com sustentabilidade é um foco da marca”, afirma Lívia.

Ela conta que, no último desfile, utilizaram um tecido sustentável, de algodão, feito a partir de resíduos têxteis e polímeros recicláveis de garrafa pet, com uma estampa de sublimação inspirada na clássica Toile de Jouy, criada no século 18.

A ilustração francesa retratava a rotina bucólica dos camponeses. A estampa da Ken-gá, batizada de Toile de Selfie, retrata as cenas do cotidiano, em que os celulares contaminam os momentos com uma crítica ácida.

Nos desenhos da modernidade, um trem vem atropelando uma pessoa distraída, falando no seu celular. Uma garota boia tranquila em um lago campestre, tirando selfies, enquanto um crocodilo prepara o bote. E, na Fontana di Trevi, em Roma, o retrato de uma briga pela melhor selfie, que acabou com socos e chutes entre turistas e deixou Lívia – e uma parte do mundo – chocada.

– É muito alucinante ver aonde a selfie está chegando.

A crítica social vem também em forma de estampas!

Lívia relata que recentemente abraçaram um desafio: “A gente precisa sair do campo confortável. Criamos um pijama com uma marca parceira da Sou de Algodão, a Mensageiros dos Sonhos, para o desfile da Sou de Algodão na 43ª Casa de Criadores. E ficou com a cara da nossa marca. Nossa identidade, até mesmo em um pijama!”.

A modelagem? Ela define como “confortável”. A numeração vai do PP ao GG, que serve até a numeração 60.  “Fazemos roupas para todo mundo que tem coragem de usá-las”.

O plano é continuar crescendo. Desfilar fora do Brasil, alcançar o Nordeste e Norte do país, fortalecer a exportação. “O conceito é o que faz a diferença entre um produto e uma ideia. Nós passamos uma mensagem que é muito verdadeira, que é a nossa identidade”, finaliza Lívia.

Não faltaram dedos apontados para o nome provocativo que escolheu. “Isso não vai dar certo!”, ouviu bem mais de uma vez. Começou cumprindo a função de provocar. E seguiu.