Os poemas de Cora Coralina, imagens que remetem à identidade do cerrado, como flores e frutos, a arquitetura local. Todas as riquezas iconográficas de Goiás têm forte presença e trazem identidade a cada peça da Cabocla Criações, da cidade de Goiás (GO).

Roupas coloridas, bolsas e acessórios produzidos de forma artesanal. Arte em bordado que gera cidadania e promove a inclusão social. Essa é a essência da empresa, fruto de uma tradição familiar iniciada por Wanda Curado, que bordou até seus 90 anos.  “Minha mãe e eu aprendemos a bordar com minha avó e repassamos esse conhecimento para a minha filha. Estamos na quarta geração de bordadeiras”, diz Milena Curado, que em 2007 se demitiu do emprego no cartório de notas para investir em roupas artesanais.

“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”, diz um trecho do poema Exaltação de Aninha (O Professor), de Cora Coralina. E assim como nas palavras da poetisa local, um ano depois os ensinamentos da família Curado começaram a ser compartilhados – e aprendidos.

Milena precisava de mais pessoas para contribuir com o bordado e resolveu levar essa oportunidade para as cinco mulheres que estavam na unidade prisional da cidade. Assim em 12 de janeiro de 2008 nascia o projeto Cabocla – Bordando Cidadania. “Na cadeia existem muitas pessoas que precisam de uma oportunidade, às vezes elas não mudam porque não têm ninguém que lhes estenda a mão”, afirma a empresária.

Os reeducandos que participam do projeto são remunerados semanalmente por cada peça bordada e têm remição da pena de um dia a cada três dias trabalhados.

 

Multiplicadoras de saber

Inicialmente voltado ao público carcerário feminino, o projeto despertou o interesse da ala masculina. Duas detentas haviam sido presas com seus maridos e os ensinaram a bordar também. Hoje, homens e mulheres da unidade prisional bordam para a Cabocla Criações.

Milena diz que os primeiros momentos dela e de sua mãe dentro das celas foram marcantes e que nunca se esquecerá do interesse demonstrado pelas reeducandas. “Percebíamos muita vontade de aprender, de poder se sentir útil e também de ter uma ocupação para passar o tempo”, ela diz.

Ver que o bordado se espalhou também entre os homens foi motivo de satisfação. “Eles acreditaram no meu sonho e eu acreditei no potencial deles, no comprometimento e em sua capacidade de desenvolver um trabalho caprichoso, como eu precisava. Tudo o que eu fiz não foi caridade, foi uma troca. Hoje é que percebo mais o impacto social de tudo isso”.

Todas as mulheres que participaram do projeto e saíram da prisão não voltaram a ser presas. É outro motivo de comemoração para a empresária: “empreender só faz sentido se você puder mudar vidas por meio disso”.

 

Roupas 100% algodão com identidade

Quando iniciou sua produção de moda familiar, Milena priorizou o resgate do bordado antigo e imprimiu as principais referências locais em suas peças pois, em suas palavras, “a iconografia local é forte, Goiás é um estado rico em cultura e arte e era preciso retratar e valorizar isso tudo”.

A cidade de Goiás (ex-Goiás Velho e ex-Vila Boa), onde fica a única loja da Cabocla Criações, é Patrimônio Histórico da Humanidade desde 2001, segundo a Unesco. Instalada no Centro Antigo, em um casarão de 280 anos, a marca trabalha, em sua maioria, com tecido 100% algodão.

Por três anos as roupas eram feitas apenas com algodão de sacaria e algodão cru, os mesmos tecidos que vestiam os escravos da região. Enquanto ainda trabalhava no cartório, Milena se deparou com uma escritura de compra e venda de uma escrava cabocla. Foi aí que surgiu a ideia do nome da marca. “Eu estava desenvolvendo um produto feito com o algodão que os escravos usavam e me lembrei dessa escrava cabocla. Sem contar que essas terras eram habitadas por índios, que miscigenaram com os brancos. Nosso nome já imprime a representatividade local”, explica a bordadeira.

Atualmente, 98% das roupas são confeccionadas com percal 180 fios, 100% algodão. O uso da fibra natural é prioridade da empresária por ser uma matéria-prima de alta qualidade, não poluente e de ótima durabilidade. “Ficaria horas elencando os motivos de só usar algodão”.

A fibra natural está nas linhas dos bordados, que também são 100% algodão, e nas embalagens, feitas com os tradicionais e coloridos tecidos de chita.

Basicamente voltada ao público feminino, a maior parte das coleções é de vestidos, saias e batas, mas há opções de calças e echarpes, além de bolsas, carteiras, aventais e bastidores com poemas de Cora Coralina. A criação dos modelos e o design de superfície de cada produto são feitos por Milena. As cores são definidas pelos integrantes do projeto, que têm liberdade de criação na hora de bordar.

Vendas personalizadas

Além da loja física, redes sociais como Facebook e Instagram servem de vitrine para a marca, que não possui e-commerce. “Trabalhamos com um atendimento bem particular, não tenho como manter uma loja virtual porque nossos produtos são únicos, hoje eu tenho um modelo e amanhã posso não tê-lo disponível”, explica Milena, que também faz vendas por meio do aplicativo WhatsApp.

Cabocla Criativa é algodão que virou moda, é arte que virou amor!