Tecer, no dicionário de sinônimos, pode ser substituído por entrelaçar, compor, articular. Também no vocabulário da Ahlma a palavra é usada com todos esses sentidos. Mais do que produzir roupas, a marca tem o objetivo de construir e transformar relações pela coletividade.

Uma peça vai além de fios que vestem e dão forma. Cada produto pensado pela Ahlma, como bem diz o nome, quer levar alma. Vida. Energia. Conceito.

Por isso há todo um jeito de produzir, fundamentado em valores e pilares, que regem desde a escolha dos tecidos até o discurso utilizado nas redes sociais da marca.

Tudo é pensado para ir além da imagem, compartilhando conteúdo, disseminando informação e ressignificando conceitos.

Ao invés de grandes coleções, a Ahlma lança pequenas novidades semanais. A produção é feita em baixa escala, com confecção 100% brasileira. Entre os fios que dão vida às peças estão algodão certificado, tecidos recuperados, reciclados e biodegradáveis.

Produtos veganos, sem crueldade animal: é uma das bandeiras. A economia de água e o uso de produtos biodegradáveis em uma lavanderia própria e responsável também fazem parte da rotina. E a chave de tudo, nas palavras de Marina Matos, coordenadora de conteúdo da marca, é a colaboração, com a co-criação de coleções em parceria com outros criativos e marcas. Há dois anos em atividade, a Ahlma soma mais de 90 colaboradores.

“Precisamos fazer essa troca acontecer porque sozinhos não conseguimos nada. No processo criativo a gente se beneficia muito porque não detemos todos os saberes, e eles estão aí para serem descobertos. Há pessoas com coisas incríveis para falar, projetos maravilhosos. Se a gente tem essa possibilidade, por que não tornar essas pessoas acessíveis também?”, diz Marina, coordenadora da comunicação da AHLMA.

Marcela Regne, que cuida do marketing da marca, conta que há processos de criação colaborativa que levam meses “de conversas, reuniões, trocas de referências”. Em suas palavras: “A colaboração é um pilar. A AHLMA nasceu através dela. Por que não continuar apoiando pequenos produtores que têm pensamento e produção de moda como os nossos?”.

 

História colaborativa
A AHLMA começou a produzir moda em 2017. O trabalho de construção da marca teve início bem antes, porém. André Carvalhal, o diretor criativo, criou um espaço de coworking voltado para a moda consciente no Rio de Janeiro “Surgiu de uma vontade genuína de construir algo que fizesse sentido para o futuro, a partir desse processo criativo que foca em um mundo melhor, em uma produção com menos impacto na natureza”, conta Marcela.

Antes de lançarem a marca, passaram um ano pesquisando. “Nós tivemos trocas, ouvimos consultores. A marca já nasceu nesse viés colaborativo”, ela complementa.

A AHLMA surgiu, assim, certa do que queria ser, mas sempre aberta aos novos olhares que surgem no caminho. “A gente não se vê como uma marca que faz apenas moda. Nos entendemos como uma plataforma de experimentações, vivências, conteúdo”, explica Marina.

Conteúdo que é compartilhado pelas redes sociais, com alto impacto e interação. É Carnaval? Vamos falar de feminismo! É tempo de eleição? Nosso posicionamento está claro! As coleções abordam questões sutis, como fitoterapia e melancolia. Questões polêmicas, como política. Tabus: homofobia, sexualidade.

Marcela diz que o objetivo não é levar temas importantes apenas para a produção, mas disseminar ideias. “A economia de água não é apenas uma questão da produção têxtil. Isso também precisa ser olhado dentro dos nossos rituais. Estamos falando da nossa vida. Procuramos levar conteúdo com dados para que as pessoas percebam a importância dessas questões”.

A AHLMA abriu sua primeira loja com a ideia de ser uma casa de experiências. O espaço, que hoje já encerrou seu ciclo e passou o bastão para suas outras lojas, reunia aulas de yoga, vivências e oficinas de prática de autoconhecimento. A Academia da AHLMA, como era chamada, também reuniu exposições de artes, shows, brechós coletivos e lançamento. Tudo a partir da ideia de troca e colaboração.

Moda não é imposição. Para a AHLMA, a conexão com o próprio corpo é o primeiro passo no caminho do vestir bem. Se tocar, se olhar, se amar é a mensagem de coleções.

No Carnaval deste ano lançaram a coleção “Resistir na Alegria” e convidaram quatro pessoas a compartilharem suas histórias reais de luta diária. “Cada vez mais nós estendemos que usamos a moda para falar do que acreditamos. O propósito é o mais importante”, nas palavras de Marina.

 

Produção sustentável
Propósito que é levado em conta em cada passo da produção.

Todo o algodão utilizado é certificado. Marcela explica também que muitas das coleções são feitas com tecidos recuperados que a equipe de criação resgata no estoque de marcas parceiras. “Muitas vezes a marca faz tecidos a mais ou uma estampa não saiu como gostaria. São tecidos de qualidade, mas que estão parados; e a indústria da moda continua a produzir mais e mais. A gente absorve esse material e o ressignifica”.

Peças antigas são utilizadas para produzir novas coleções, também em um processo de dar nossos significados, com o upcycle. Tecidos como a lycra, utilizada nos biquínis, são biodegradáveis e a marca ainda faz a reutilização de resíduos têxteis, criando fios novos.

 

A bandeira do veganismo não está só na produção, mas em todas as escolhas da AHLMA. Marcela explica, por exemplo, que busca formar uma rede de colaboradores veganos para, por exemplo, ter opções para servir em um evento. Além de se engajarem nos movimentos que acham importantes como a segunda sem carne e o incentivo ao fim do uso dos canudos plásticos. “Nós acreditamos em uma construção contínua e de rede. Todas as mudanças que começam com você vão impactar o outro e gerar uma rede. E essas mudanças são urgentes!”, nas palavras de Marcela.

O arco-íris é um dos símbolos fortes dentro da AHLMA, que defende as causas LGBTQA+s e coloca a questão do respeito em pauta. Uma campanha de visibilidade trans, por exemplo, teve grande engajamento nas redes sociais da marca.

O contato com o público que curte e acompanha é feito sem burocracias. “As pessoas falam com a gente como se fôssemos umx amigx. Por isso nos sentimos abertxs para críticas, aprendizados e elogios”, Marina comenta.

Essa conexão faz com a AHLMA esteja atenta às demandas e assuntos urgentes, sem perder a oportunidade de compartilhar conceitos que transformam preconceitos.

Expansão consciente
Hoje a marca tem duas lojas físicas no Rio de Janeiro, uma em São Paulo e atende o Brasil todo com e-commerce e pelas redes sociais.

Uma expansão “responsável”, nas palavras de Marcela, está em implementação. A ideia, porém, é respeitar o tempo das coisas para que o crescimento esteja sempre atrelado ao propósito.

“É uma expansão de consciência como um todo: política, ambiental, humana. Além-Rio, além-mar, além-mundo”, é Marina quem finaliza.