A Companhia Industrial Cataguases, uma das mais respeitadas tecelagens do país, tem uma certeza que já dura 105 anos: o algodão é a melhor fibra para se trabalhar.Embora a empresa não tenha sido a mesma do início de sua trajetória até hoje, desde 1905 a família Peixoto vem construindo a história, no começo, como Companhia de Fiação e Tecelagem Cataguases, posteriormente adquirida pelo patriarca da família, transformando-se, em 1911, na Indústria Irmãos Peixoto e, 25 anos mais tarde, na Companhia Industrial Cataguases, como é chamada e conhecida atualmente, em sociedade com outros empresários.

“A história dos dois grupos se confunde muito. Mas a Cataguases mesmo, que é vista hoje, tem 82 anos”, explica Tiago Inácio Peixoto, que é diretor comercial da empresa e faz parte da quarta geração da família.

Localizada na cidade de mesmo nome, situada na Zona da Mata mineira, a 310km de Belo Horizonte, a empresa emprega cerca de 1400 funcionários, a maioria em Cataguases, além de pequenas bases comerciais em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Fora isso, outros 500 colaboradores parceiros prestam serviços ao grupo.

A aquisição da pluma para a produção de fios é diversificada: 90% é proveniente de produtores dos Estados do Mato Grosso, Bahia, Minas Gerais e, esporadicamente, de Goiás. Os outros 10% vêm de Israel, Egito e Espanha, a fim de suprir a necessidade por fibras longas, que não são encontradas no Brasil. Essa matéria prima representa cerca de 90% do que é produzido, em tecidos. “A Cataguases nasceu algodoeira, nosso viés é muito forte no algodão. E quando dizemos que nossa empresa é 100% verticalizada, estamos falando do processo dessa fibra”, contextualiza Peixoto.

São, basicamente, três as especialidades da Cataguases: tecidos lisos, estampados e, o carro-chefe da empresa, o fio tinto. “Nós temos uma estrutura de fio tinto que é realmente um estado de arte, é um produto muito mais complexo, com mais valor agregado”.

Dos anos 30 para cá, o salto do processo industrial foi gigante. Atualmente são produzidos 2,5 milhões de metros de tecidos por mês. Com esse volume de produção, a Cataguases é considerada uma marca referência no mercado. Além de comercializarem tecido para todos os estados brasileiros, também fornecem para mais de 20 países ao redor do mundo, com forte presença nos Estados Unidos, América Latina e Europa. “Nós sempre fomos um player de exportação no mundo têxtil. Essa operação começou na década de 90 e hoje é muito forte. Sempre enxergamos a exportação como algo estratégico no nosso negócio”, explica Peixoto.

 

 

O algodão é a fibra da moda

Na Cataguases, o uso do algodão como matéria-prima é uma regra. Desde sua primeira fundação até os dias atuais a fibra é a base do negócio. Esse pensamento está fundido em todas as fases de produção da empresa, e a primazia com que trabalham o produto elevou a companhia ao patamar de qualidade e excelência que hoje desfrutam no mercado.

“Algodão é uma fibra que rompe milênios. Nenhuma outra fibra têxtil consegue reunir características que superem sua a utilização, principalmente no vestuário. Conforto, transpiração, resistência, adaptabilidade na composição com outras fibras e, principalmente, por ser uma fibra natural, conferem ao algodão status na vanguarda das fibras têxteis”, diz Dário Nascimento, gerente de produto.

Além de ocupar importante espaço no agronegócio mundial, gerando riqueza e renda, seus subprodutos são totalmente recicláveis e se prestam como matérias-primas de uma infinidade de produtos adequados a diversos segmentos. “Na indústria da moda, o algodão é insuperável e oferece muita versatilidade na construção de diferentes peças. Por ser uma fibra celulósica sua estrutura facilita os processos químicos que conferem facilidade na obtenção de cores e uma ampla diversidade de tratamentos de superfície, tanto em tecidos planos como em malhas, oferecendo, assim, infinitas possibilidades de criação. O algodão é a fibra da moda”, completa Nascimento.

O diretor comercial ratifica a afirmação. “Nós somos até suspeitos para falar, uma vez que nossa fábrica sempre viveu do algodão. A gente nasceu para produzir tecido 100% algodão. O custo-benefício dessa fibra comparado a qualquer outra, em relação ao que você paga e ao que ela te oferece em contrapartida, é imbatível”. Confirmando esse pensamento em prol da fibra, a Cataguases abraçou o movimento Sou de Algodão, da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), que incentiva o uso da fibra na moda.  Para Peixoto, Sou de Algodão é um movimento que tem como referência outros semelhantes presentes em mercados mais maduros, como os Estados Unidos, por exemplo. “Acho que a iniciativa está totalmente conectada com a identidade do Brasil, com o fato de o país ser um celeiro e ter o referencial da produção do algodão. E nós, como uma empresa com o DNA algodoeiro no processo industrial, temos todo o interesse de compartilhar e apoiar essa iniciativa”.

 

 

Sustentabilidade além do meio-ambiente

Protagonismo, integridade, flexibilidade, cooperação e sustentabilidade. Estes são os cinco pilares da Cataguases. Para eles, a questão da sustentabilidade não se refere apenas à esfera ambiental, mas à social, também. “A importância que a Cataguases tem em sua região é muito grande. Se você pensar que em uma cidade com cerca de 60 mil habitantes, 1.400 deles trabalham na empresa, e o número de dependentes indiretos que isso representa é ainda maior, já mostra a nossa preocupação com a comunidade”, sustenta Peixoto.

Mais um exemplo de que a comunidade local sempre esteve inserida nas intenções da Cataguases, é o Instituto Francisca de Souza Peixoto, braço social da companhia. Criado em 1999, o instituto colocou em ação conceitos de solidariedade social condizentes com as tradições da companhia, e impulsiona seus projetos com recursos próprios, provenientes de parte da venda de resíduos industriais.

“A Cataguases crê no conceito amplo que envolve a sustentabilidade e trabalha de forma a considerar o fator humano como centro protagonista de suas ações. Acreditamos no acolhimento de ideias e desenvolvimento estratégico que promova crescimento econômico, valorização do capital humano, cuidado ambiental e cultural”, diz Alexandre Xavier, diretor do Instituto Francisca de Souza Peixoto.

Marcelo Peixoto, presidente do Instituto, complementa: “O Instituto Francisca de Souza Peixoto sempre teve o objetivo de promover ações conjuntas. Atualmente, inúmeras empresas e instituições locais participam de diversas iniciativas em projetos de educação, cultura, saúde, esportes e cidadania. Essa iniciativa é fundamental para a elaboração de políticas públicas inclusivas, universalizando direitos”.

O diretor industrial da empresa, Marcos Aurélio Sousa Rodrigues, faz coro. Para ele, a companhia se preocupa em demandar produtos e serviços que estejam adaptados a ações sustentáveis, aderindo a um sistema de gestão ambiental que ajuda a preservar o ambiente, a sociedade e que garanta sua permanência no mercado.

“Monitoramos os principais pontos de interface entre a empresa e a natureza, mantendo os níveis de impactos ambientais dentro dos parâmetros exigidos pelos órgãos ambientais. Nosso caminho é a responsabilidade com o meio ambiente, preocupação real desta empresa. Procuramos influenciar as novas gerações para dar continuidade no processo de sustentabilidade e ser responsável pelo meio em que vivemos, incorporando atitudes diárias na empresa e em toda a sociedade, a fim de garantir a nossa sobrevivência”, afirma Rodrigues.

Com o objetivo de ampliar a ação sustentável e pró-ambiente, em 2014 a Cataguases trocou suas matrizes energéticas com a aquisição de uma caldeira, substituindo o uso do óleo, como combustível, por cavaco de eucalipto. “É uma mudança de um recurso ‘não renovável’, para um combustível renovável e sustentável, com a realização de melhorias dos processos para obter ganhos em produtividade e qualidade (visando não só o custo x benefício do processo, mas principalmente o ganho ambiental). Energia renovável e mais limpa”, completa.

 

Água, energia e resíduos

Toda água utilizada para produção e consumo humano na Cataguases é retirada do Rio Pomba, afluente da margem esquerda do Rio Paraíba do Sul, que deságua no oceano Atlântico. Por se tratar de um rio federal, o uso é outorgado pela Agência Nacional das Águas (ANA). “A água que captamos passa por uma estação de tratamento, seguindo um rigoroso controle de qualidade em laboratórios próprio e terceirizado”, explica Rodrigues.

O objetivo desse trabalho de captação e tratamento é o de obter dois tipos de água: industrial e potável. De acordo com o diretor industrial, a coleta da água é feita de forma consciente e responsável, com uma constante preocupação: a manutenção de sua fonte, para garantir este recurso para as futuras gerações.

Os maquinários existentes nos diversos processos de beneficiamento da empresa utilizam tecnologias que permitem o menor consumo de água possível, além da prática de reuso, o que minimiza o consumo.

O mesmo cuidado que a companhia emprega ao consumo de água, se repete quando o assunto é energia. Até agora, 1.025 lâmpadas foram substituídas por LED, a maioria delas no setor de tecelagem. A iluminação por LED não emite radiação IV/UV, o que evita danos à pele, plantas, objetos e produtos. Ademais, não possui em sua composição metais pesados como chumbo e mercúrio, pondo fim à necessidade de um descarte especial como as lâmpadas fluorescentes. “A Companhia Industrial Cataguases procura se manter sempre atualizada quanto às inovações de tecnologia do seu parque industrial. Sempre com a visão de uma produção limpa, investe na atualização tecnológica de seus funcionários, participando periodicamente de feiras voltadas para maquinários têxteis”, acrescenta Rodrigues.

Com o tratamento de resíduos, também, o foco é preservar os recursos, reutilizar o que é possível e destinar aquilo que não é aproveitável a aterros legalizados. Para tanto, a coleta dos resíduos é feita de forma segregada, uma prática adotada com seriedade para garantir a otimização de todos os recursos e evitar a poluição do meio ambiente.

 

Próximos passos

Enquanto algumas empresas almejam aumentar seus mercados e investimentos como planos de futuro, em um momento em que temas como indústria 4.0, inteligência artificial e IoT (internet of things – dispositivos, plataformas e sistemas conectados à web por meio de softwares integrados) estão em alta, a Cataguases quer agregar serviço a seus produtos, e mira em outro alvo. Para eles, o grande objetivo para os próximos anos está em estreitar laços com os clientes e prestar serviços cada vez mais personalizados às necessidades de quem consome sua marca.

“O custo-benefício de uma empresa como a nossa passa cada vez mais pela proximidade com nosso cliente. O que nos diferencia do importado? É o fato de estarmos aqui, entender a identidade e a estética de cada cliente, suas necessidades. E é nisso que nós estamos apostando agora, em afunilar esse caminho de parceria com o cliente, de convivência. Ajustar o nosso modelo de negócio dentro dessa nova realidade”, finaliza Peixoto.

Para a Cataguases, a história se constrói com pessoas. O algodão faz parte de sua vida, e de tantas outras que passam pela indústria e pelo instituto, e certamente impacta na forma como as marcas utilizam seus produtos, transformando-os em peças que tocam a pele e a alma do consumidor. Um fio puxa outro, e tece histórias de valor como esta, que tem tudo para superar os 100 anos.