Já pensou no quanto o fio que tece a peça conta a história da roupa que você veste? E se a sustentabilidade é importante, talvez seja interessante conhecer a origem do produto. E não estamos falando da procedência, de que país ele vem, mas em como ele é fabricado, a partir da obtenção da matéria prima.

Gigante do setor de fiação localizada em Indaial, município a cerca de 170 km de Florianópolis, Santa Catarina, a Incofios foi criada para alimentar de matéria-prima a confecção Rovitex, empresa-mãe do grupo homônimo que nasceu em 1986 pelas mãos do casal Rose e Vitor Rambo.

Mas o que era para ser um braço de apoio para a confecção, acabou se transformando em uma empresa cuja produção atual de fios chega a 1.900 toneladas por mês, e emprega 440 colaboradores, dos quais 60% são homens e 40% mulheres. “À medida que a confecção crescia, outras necessidades foram aparecendo, e o caminho foi verticalizar o sistema de trabalho. A Incofios é um negócio independente, tem vida própria. Conquistou tamanha autonomia que hoje trata a Rovitex como mais um cliente”, explica Vitor Luiz Rambo Junior, diretor-presidente da empresa. Da produção total da Incofios, apenas 5% a 10% são destinados às máquinas da Rovitex, o restante é vendido para cerca de 320 clientes.

A empresa vende para Santa Catarina, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. As exportações estão concentradas na Argentina e na Colômbia, mas a expansão para outros mercados internacionais na América do Sul está em andamento.

 

 

Sustentabilidade

 Para crescer e chegar aonde chegou, a Incofios traçou um caminho sólido e apostou em pilares que são a base de seu trabalho: respeito, sustentabilidade, comprometimento e agilidade, como explica Rambo Junior. “Seja cliente, fornecedor ou colaborador, a premissa básica é o respeito.”

A Incofios é uma empresa que já iniciou suas atividades pensando em como agredir menos o ambiente evitando o mínimo de descarte possível. “Utilizamos a sustentabilidade como um valor, mas é quase um pré-requisito dentro da nossa operação, porque desde o início do processo até o final tudo é aproveitado.”

Um exemplo disso é a utilização das fibras curtas. Por exemplo, do resíduo produzido pela Incofios, cerca de 60% é formado por sobras de fibras boas, porém mais curtas que o comprimento padrão. “Apesar disso, para determinados tipos de fios, são perfeitamente compatíveis às nossas necessidades”, explica.

Os outros 40% do resíduo são usados como combustível e queimados na caldeira. É um subproduto descartado de forma ecologicamente correta.

 

 Algodão

A Incofios só trabalha com algodão, fibra perene que oferece características que outras fibras não têm, como adaptabilidade à temperatura do corpo, que absorve a transpiração e permite a pele respirar. “Os clientes que usam algodão sabem dos benefícios da fibra”, afirma Rambo Junior.

Segundo ele, a ideia de uma fiação voltada apenas para o algodão foi, entre outros motivos, a de tornar o fio uma arte, algo que atendesse diferentes formas de utilização e criação em tecelagens e malharias. “O tipo de fio determina o direcionamento de uso. Há uma infinidade de fios que são produzidos justamente para atender a diferentes mercados, sem nunca deixar de ser algodão.”

 Da pluma comprada pela Incofios, 95% saem do Mato Grosso. De acordo com o diretor-presidente, a proximidade da região e a qualidade da matéria-prima definiram o estado como principal fornecedor.

“De uns três anos para cá, buscamos nos aproximar do campo, porque entre o produtor e a indústria existe muita informação que não chega até nós. Como as características físicas do algodão são importantes no nosso processo industrial, mapeamos em qual região o clima foi mais favorável ou não, que semente foi utilizada etc. Nós precisamos estar no campo, junto ao fornecedor, para identificar a matéria-prima que melhor nos atende.”

Para acompanhar o processo de produção e garantir uma compra responsável, a Incofios possui um técnico que controla semestralmente o mapeamento da safra.

 

Trabalho certificado

 Membro recente do BCI (Better Cotton Initiative), que licencia a fibra produzida levando em conta o respeito ao meio ambiente e o trabalho responsável, a empresa busca a excelência de seus fios no caminho sustentável e na alta qualidade da fibra nacional. “Nós estamos olhando sempre para frente. O nosso algodão hoje é de alta qualidade, as colheitas são eletrônicas, há menos trabalho manual. Quase todo o algodão brasileiro já se enquadraria nas exigências do BCI. Compramos com certificação BCI para fazer a contrapartida de comprovar que o algodão tem uma procedência correta.”

Para o diretor-presidente, há tempos, a qualidade e os métodos de produção brasileiros do algodão já são muito semelhantes às exigências do BCI, pois, segundo ele, isso já vinha sendo feito por meio do programa ABR (Algodão Brasileiro Responsável).

Nessa linha de apoio à fibra sustentável, o movimento Sou de Algodão, da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), que fomenta o uso do tecido na moda, tem o respaldo da empresa. “O fato de um movimento estar levando informação desses atributos para o consumidor, do que o algodão tem para oferecer, tem tudo para ter muito sucesso. Ficamos bastante honrados em poder contribuir, e espero que essa ação realmente ganhe força. É um desafio muito grande. Não é fácil chegar ao consumidor final, mas tudo se começa dando o primeiro passo”, diz.

Energia

A fim de poupar energia e se manter fiel a seus ideais sustentáveis, a Incofios também promoveu mudanças em suas instalações. “Todas as nossas lâmpadas foram substituídas por LED (Light Emitting Diode) – que consomem menos energia do que convencionais incandescentes ou fluorescentes. Todos os motores são de alto desempenho. Como o ambiente da fiação é climatizado, esses motores ‘entendem’ quando é preciso mais ou menos potência, gerando economia.”

E para garantir mais uma aposta nos itens sustentabilidade e economia, a gigante de fios projeta para os próximos anos a construção de um parque eólico. “Hoje a energia é nossa principal conta. Isso ajudaria na prosperidade dos nossos negócios”, acrescenta.

 

Nova unidade

 Para o futuro, os planos da empresa não são menos ambiciosos que os lançados no início de sua operação, em 2001. Prevista para funcionar a partir do segundo semestre de 2018, uma nova unidade fabril terá como base o município de Campo Verde, no Mato Grosso. Será um centro de recuperação de fibrilha (pequena fibra) de algodão, processo que ajuda a otimizar a qualidade da fibra.

“Esse é o pontapé inicial para uma etapa um pouco mais arrojada. Em dois anos, além da recuperação de fibrilha, nós também pretendemos produzir fios nessa mesma planta. Atualmente, temos uma produção de 1.900 toneladas/mês, e no Mato Grosso teremos a capacidade de produzir mais mil. Até 2020 nosso anseio é o de chegar a 3.000 tonadas de fios produzidos mensalmente.”

E não para por aí. Ainda no papel, existe a ambiciosa ideia de criar um braço da fiação no Paraguai, o que renderia não apenas um acréscimo produtivo, mas a internacionalização da empresa.

O fio condutor da sustentabilidade tem origem na obtenção da matéria prima, que segue em processos produtivos e instalações que respeitam o meio ambiente e o trabalhador, transformando-se em peças que carregam, em seu DNA, uma história que o consumidor e todos os envolvidos só têm a ganhar.