Mulheres de fibra 

Março é um mês dedicado às mulheres, e, como homenagem a todas elas, trazemos aqui histórias inspiradoras de mulheres que atuam na liderança da produção de algodão. Como em todo tipo de atividade predominantemente masculina, a presença e a crescente importância delas no dia a dia da fazenda não surgiram de uma hora para outra. O espaço foi sendo conquistado pouco a pouco, e hoje, é possível encontrar exemplos como estas que trazemos a partir de agora.

 

Isabel da Cunha – BA e TO

Foto: créditos Abapa

 

Ela é um dos personagens mais recorrentes quando se pensa em mulheres na cotonicultura do Brasil. Isso porque, além de trabalhar no cultivo da fibra, Isabel tem um papel de liderança na política classista. Foi presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), por dois mandatos, de 2010 a 2014, e, até o final de 2018, preside a Associação dos Produtores de Algodão de Tocantins (Apratins), que ajudou a fundar, sendo sua primeira e, até agora, única presidente, desde 2015, também acumulando duas gestões.

Isabel produz algodão na Bahia, Tocantins e Piauí, e o Grupo Ilmo da Cunha, empresa de sua família, está no cultivo dessa commodity desde 1998. Natural de Tapera, no Rio Grande do Sul, como muitos pioneiros, mudou-se com a família nos anos de 1980, mais precisamente em 1983, para, juntos, realizarem um sonho do seu pai, na região Oeste do estado, para plantar a soja. Incluir, no entanto, uma nova cultura – o algodão – na matriz produtiva, representou um grande desafio a princípio, pois a região não tinha tradição de plantio da fibra, nem variedades adaptadas. Tudo foi partir do zero, assim como foi anos antes, com a soja.

No dia a dia da empresa, Isabel assume o administrativo, o financeiro e o comercial. Isso tudo, junto com o seu pendor para a representação classista, fez com que ela se tornasse a “cara” da empresa. “O relacionamento comercial e a atuação nas entidades contribuíram para isso”, diz.

Multifacetada, Isabel concilia seus muitos papéis: da líder, da empresária e também de esposa, mãe e avó. Ela não nega que, por vezes, isso é cansativo. “Quando estava à frente da Abapa, as demandas eram bem grandes, e às vezes desequilibrava um pouco o meu papel em casa, mas meu marido, Roberto, era o complemento forte e importante para suprir essa falta”, explica. “Sempre dei o melhor de mim”.

A cotonicultora tem três filhos: André, de 33 anos, que lhe deu um casal de netos – Manuela e André Felipe –, Matheus, de 17 anos, e Pedro, de 14. Todos gostam de fazenda e pensam em seguir no agro. “André já trabalhou comigo e hoje tem o negócio dele”.

Num meio que ainda é predominantemente masculino, ela pondera que nem sempre foi fácil. “No começo, era mais complicado. Tinha muito menos mulheres. Na verdade, nas reuniões e palestras, no início, era só eu. Quando a Abapa foi criada, já participava da diretoria. Mas nunca fui discriminada, abordada ou desrespeitada. Nunca me senti excluída em qualquer situação. Como dizia o Jorge Maeda, que foi um grande cotonicultor no Brasil, o mercado me absorveu”.

Com uma vocação para a representação de classe, o caminho para a liderança foi natural “Fui convidada para participar de uma reunião na qual se tratava da fundação da Abapa. Fui ficando… gostando… e estou aqui! Às vezes, a gente não consegue participar como gostaria por conta das contingências. Passamos por anos muito difíceis recentemente no estado”.

Todo esse entusiasmo também aparece quando o assunto é o movimento Sou de Algodão “É fantástico! Muito bom! Esse é um sonho, uma busca da Abrapa que já vem de muitos anos. Pude participar de algumas reuniões lá atrás, como presidente da Abapa, e a Abrapa sempre quis falar com o consumidor, e buscava uma forma para isso. Agora foi na veia!”

Antenada nos movimentos inclusivos, enxerga no algodão uma forma de inserir e desenvolver mulheres em atividades que ajudem a gerar renda, e enumera exemplos “Existem vários projetos lindos, principalmente em locais mais distantes dos centros urbanos, nos quais as oportunidades para as mulheres são menores. Tem o caso da Martha Medeiros e as 400 mulheres no sertão nordestino em seu projeto social, mas, aqui mais perto da gente, foram desenvolvidos projetos na região sudoeste da Bahia, com cooperativas de mulheres apoiados pela Abapa e pela extinta EBDA (Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola) e FUNDEAGRO Fundo para o Desenvolvimento do Agronegócio do Algodão) de inserção de mulheres no mercado de trabalho, que apresentam alternativas para essas mulheres, que ajudam a descobrir talentos. O algodão é um caminho!”

Isabel leva a inclusão da mulher a sério. Em sua empresa, no setor administrativo, cerca de 90% é formado por mulheres, e até na fazenda há mulheres, ainda que em menor número. Pondera: “alguns trabalhos requerem força física, e os homens levam vantagem nisso”.

 

Isabela Brunetta Weber – MT 

Foto: acervo pessoal
Foto: acervo pessoal

 

O contato da administradora Isabela Brunetta Weber com o agronegócio começou cedo, quando ela e os irmãos passeavam pelas fazendas do pai e dos tios no Mato Grosso. Aos 32 anos, e representante da segunda geração dos negócios da família, ela, juntamente com seu pai e tios, controla a gestão administrativa do Grupo Itaquerê, cuja existência soma 33 anos, agrega cinco fazendas e produz, entre outras commodities, 5.500 hectares de algodão por safra.

Sua atividade profissional na empresa começou em 2003, no setor de Recursos Humanos. “À época, eu não tinha contato direto com o algodão. Mas depois de me formar em Administração, passei a trafegar nesta área também”, conta Isabela, atual gerente administrativa do grupo.

Responsável pela ISO 9000 na algodoeira, garantindo a qualidade nos processos e na gestão do negócio, ela assina ainda a aquisição de importantes certificações, como ABR (Algodão Brasileiro Responsável) e BCI (Better Cotton Initiative], selos que visam a obter algodão de forma sustentável por toda a cadeia, do agricultor ao varejista.

Além de controlar a parte administrativa das fazendas, sendo duas delas produtoras de algodão, que juntas empregam 800 pessoas, Isabela é vice-presidente da Unicotton, cooperativa de produtores de algodão do sudeste do Mato Grosso que, sozinha, garante 12% de toda a produção do país.

“Meu pai foi um dos fundadores da cooperativa, e desde o começo eu acompanho tudo de perto. As atividades auxiliaram muito os agricultores da região”.

Isabela diz que a cooperativa, que fica no município de Primavera do Leste (MT), cerca de 240 km de Cuiabá, foi fundamental para atrair multinacionais e impulsionar o crescimento dos produtores. Muitos deles fizeram viagens para o exterior, e na bagagem trouxeram aprendizado e melhores formas de cultivo do algodão. Outro ponto de destaque se deve à construção do laboratório de classificação tecnológica, imprescindível para a valorização comercial da fibra “Nós não tínhamos isto no Brasil. As máquinas são muito caras”. Com a união dos cooperados e esforço mútuo, foi possível montar essa estrutura.

Associada dedicada na Unicotton, Isabela logo foi convidada a desempenhar funções executivas. Ocupou vaga no conselho fiscal por três anos, depois seguiu para o conselho de administração. Na primeira gestão, atuou como diretora-secretária. Na atual desempenha o papel de vice-presidente.

Dos 72 associados da cooperativa, apenas sete são mulheres, mas o cargo de liderança ocupado por Isabela dá sinais claros da força feminina na Unicotton. Em abril, ela viaja para a Turquia, a convite da OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), para representar o país em um fórum de mulheres cooperativistas do agronegócio, organizado pela ICAO (International Co-operative Agricultural Organization). “Fiquei contente, mas, por outro lado,  triste. Contente por representar o Brasil e a mulher do agronegócio, e triste por ficar sabendo que ainda sou a única mulher com cargo de liderança em cooperativas deste setor no Brasil”.

Sobre a força e o futuro das mulheres frente ao empreendedorismo no agronegócio, Isabela é otimista. Para ela, embora a presença ainda seja tímida, a tendência é que elas assumam cada vez mais responsabilidades e posições de comando.

E, em relação ao movimento Sou de Algodão: “Acho muito importante por incentivar o consumidor final, que muitas vezes nem sabe da importância da cadeia do algodão na economia, além dos benefícios para o corpo e conforto”.

 

Letícia Scheffer (MT)

Foto: acervo pessoal

 

Nascida numa família grande, para os padrões atuais, Letícia, de 23 anos, é a terceira de quatro irmãs. Sua família detém um dos maiores grupos agrícolas do país, o Bom Futuro, que tem a maior área de cultivo de algodão do Mato Grosso. Apesar da pouca idade, prepara-se, junto com outros 12 sucessores, para um dia assumir o comando da empresa. Nem todos, necessariamente, vão seguir no agro, mas, segundo ela, pelo menos vão tomar conhecimento do que se trata o Grupo, que cresceu e se ramificou, tornando-se muito mais complexo.

Há um mês, Letícia está em campo lidando diretamente com o algodão, no município de Campo Verde, onde acompanha o plantio da safra 2017/18, apesar da sua formação muito mais ligada ao trabalho de escritório. Essa passagem é uma das etapas do programa de Desenvolvimento de Herdeiros e Acionistas do Grupo Bom Futuro. O objetivo do programa, mais que fixar os herdeiros no negócio, é fazer com que eles conheçam suas áreas de maior afinidade, suas próprias vocações. O rodízio entre os departamentos e áreas dura o ano inteiro.

“É preciso conhecer tudo, até para saber o que cobrar”, acredita.

Sua primeira intenção foi trabalhar com a área comercial, mas ela diz gostar muito de estar na fazenda. Essa ligação com o campo vem desde pequena. “Meu pai, Fernando Scheffer, estava sempre com a gente, e dizia que não é porque somos mulheres que não vamos para a fazenda cedo, ou que não podemos abrir mão do final de semana. Nunca teve isso de mulher ser mais delicada, porque, querendo ou não, a gente sofre um pouco por causa disso. Ele sempre falou que a gente tem de ser firme para conquistar o que queremos. Isso que é o difícil”.

Ainda segundo as palavras do pai, o mercado não vai ser mais delicado porque elas são mulheres. “Você será até mais cobrada. Tem que provar mais que os homens. Tem que demonstrar que está interessada, que quer aprender”, pontua. E continua: “ Já crescemos nesse contexto. Foi muito importante essa posição do meu pai com a gente. A mulher tem de ser firme, o que, em momento algum, significa falar grosso. No campo não é fácil. São poucas mulheres. Você tem que saber o que está falando para ter credibilidade, correr atrás, aprender”.

Além das sábias palavras do pai, o exemplo da mãe serve de guia: “Minha mãe, Lucimar, sempre trabalhou junto com meu pai, na parte administrativa. Ela o acompanhava na fazenda, mas, a certa altura, era complicado, porque ela tinha três filhas em casa. Deu uma parada, mas está voltando à pratica. Sempre incentivou muito a gente. Quando corríamos para a barra da saia dela, para reclamar de alguma coisa, ela era a primeira a dizer: vai lá e faz! Sempre foi muito firme, uma verdadeira mulher de fibra, e isso fez toda diferença. Correr para a mãe não adiantava, porque a gente sabia que ela ia apertar ainda mais”.

Letícia tem um namorado há cinco anos, cuja família também é do agro. “Ele entende minha posição, apoia e até cobra. Não temos barreira com isso”, diz.

Embora ainda no início da jornada, rumo à liderança agro, sabe que, tão importante, ou mais, do que ouvir a própria voz, é considerar a experiência e os conselhos da família.

Histórias inspiradoras, exemplos de liderança feminina e de superação. Ainda que sejam minoria, enchem de orgulho e de coragem, outras mulheres que querem trilhar esse caminho num mercado ainda predominantemente masculino. Para todas estas, e tantas outras mulheres do agro brasileiro, que fazem parte do crescimento da cotonicultura, nossa homenagem.