O empoderamento feminino na cadeia produtiva tem outros exemplos inspiradores. Desta vez, trazemos duas histórias do Mato Grosso, maior estado produtor, com a contribuição de mulheres que transformaram suas vidas ao lado de sua família, em prol da melhoria da produção do algodão e da comunidade.

Marceli Vesz – MT

Filha de produtores rurais, Marceli Vesz, 36 anos, começou a plantar algodão em 2004, no município de Campo Verde (MT), onde ficou até 2017, quando as atividades agrícolas foram totalmente transferidas para Nova Mutum, no mesmo estado. Junto com o marido, Vagner Luiz Gaiatto, plantam oito mil hectares entre fibra, soja e milho.

Marceli é uma mulher pragmática. Lhe encantam todo o controle e a precisão que a cotonicultura requer. Na divisão do trabalho no grupo VM Agro, tudo o que diz respeito a escritório, papeladas e notas fiscais, cabe a ela. Seu dia a dia é corrido, principalmente, na época de colheita e plantio.

Mãe de dois filhos, Luiz Vitor, de seis anos, e Aline, de quatro, montou seu escritório em casa. Dessa forma, consegue estar perto das crianças e de todas as demandas da administração de um lar, enquanto toca a gestão da empresa.

“Gosto muito de trabalhar com o algodão, por ser uma cultura que exige atenção e controles absolutos. Na época em que começamos na cotonicultura, eu controlava tudo em Excel. Hoje já montei um programa em cima do que eu precisava. Contratamos uma empresa para isso. Nele, consigo controlar o algodão de uma forma bem objetiva, desde o beneficiamento ao carregamento, faço o controle total de cada etapa”.

Marceli tem o que, no passado, se chamaria de “cabeça de homem” para os negócios, por sua visão cartesiana. Sua objetividade prova que a expressão perdeu totalmente o sentido. “Eu e meu esposo somos uma parceria perfeita, porque nos complementamos. Ele faz uma parte muito bem-feita e eu faço a outra– que falta nele – com a mesma eficiência”.

Ela enxerga que a contribuição da mulher, em determinadas atividades, devido a suas próprias características de personalidade e comportamento, melhora o resultado de uma empresa. “De uma maneira geral, acho que mulher é mais detalhista, mais minuciosa em tudo, e o algodão é uma cultura que exige muita atenção. É igual a um filho. Tem aquele que requer mais cuidados, não porque a gente o ame mais, mas porque ele precisa. Por isso gosto tanto do algodão”.

Seu trabalho traz satisfação pessoal, e entende que a inserção da mulher na produção de algodão é positiva, e prova que é possível realizar atividades, sem diferenças, por ser mulher. “Eu, particularmente, me sinto muito realizada, porque, às vezes, o trabalho da fazenda não chega até o escritório, ou algumas mulheres têm essa dificuldade de interação. Mas isso não acontece comigo. Tenho muita interação com meu marido, consigo fazer relatórios de produtividade talhão por talhão, porque é um negócio muito ajustado”.

Seus filhos, ainda pequenos, admiram seu trabalho, e inserem as atividades da fazenda no faz de conta das brincadeiras infantis. “Luiz Vitor pega o celular e conversa com os funcionários da fazenda, “trabalhando” o tempo todo e Aline brinca que está fazendo as notas fiscais. Como meu escritório é em casa, me divido entre mãe e administradora, porque são muitas funções. Mas é muito agradável, porque estou com eles e consigo trabalhar e fazer tudo o que uma mulher precisa fazer em sua rotina diária. Na época da colheita, ficamos todos juntos na fazenda. Hoje eu moro na cidade por uma questão das funções e rotina da administração. Queremos que nossos filhos sejam nossos sucessores, por isso incentivamos muito. Como eles convivem nesse meio, a brincadeira deles é de fazenda. É muito gostoso ver que as fantasias deles são direcionadas para o que nós acreditamos e gostamos de fazer”.

A preocupação com a satisfação pessoal não se limita ao círculo familiar. “Nós valorizamos muito a família dos nossos colaboradores, o bem-estar dos funcionários é uma grande preocupação. Queremos ter certeza que ele está feliz. Como vai ser, se tiver de ser transferido de área? E a esposa, como fica? Temos filhos de funcionários trabalhando na fazenda que estão fazendo o curso técnico agrícola, pago por nós. Oferecemos benefícios como plano de saúde para os funcionários. Respeitamos os nossos colaboradores, tratamos bem, porque, se estão contentes, tudo dá certo”.

Com toda essa dedicação, e certa de sua contribuição, tem muito orgulho de fazer parte de um grande negócio, como a cotonicultura. “O agronegócio é muito envolvente e me dá muita satisfação fazer parte dele”.

 

Maria Gaburgio

Maria Gaburgio é mãe de dois agrônomos e uma advogada, que trabalham com ela, e avó de quatro netos. Mas não pense que a vida dessa mulher é apenas como chefe da casa. Viúva desde 2014, ela controla a produção de duas fazendas de algodão, milho e soja no Mato Grosso, ao lado dos filhos.

Sua experiência com a colheita da fibra teve início quando ainda era uma menina, em Marialva, região Norte-Central do Paraná. Lá, sua família cuidava do plantio e da colheita de pluma, e ela e a irmã, após ajudarem nos serviços da casa, trabalhavam na fazenda para ganhar dinheiro. “Eu e minha irmã colhíamos o algodão com as mãos, muito diferente de como é feito hoje”, conta.

Após se casar, manteve a atividade, e passou a ajudar o marido, Pedro, e os cunhados no trabalho das fazendas. “Naquela época, os homens iam para Campo Verde, no Mato Grosso, e ficavam lá trabalhando por um período. Nós, mulheres, permanecíamos no Paraná, porque as crianças tinham que ir à escola.  Muitas famílias faziam isso”.

Em 1999, com o filho mais velho se formando em agronomia e a filha estudando direito, Maria foi para Campo Verde com o filho mais novo para ficar dois meses, e permanece lá até hoje.

Ela relata que, no começo, quando o marido ia sozinho para Campo Verde, era tudo muito difícil, não tinha energia elétrica, a água era retirada de um poço e a casa era bem precária, de madeira, que foi desmanchada no Paraná para ser montada ali. Três anos depois, quando se mudou para lá, já havia infraestrutura e uma casa boa para morar. Maria ajudava em tudo: lavava, cozinhava, ia para cidade fazer serviços de banco e resolvia outras questões burocráticas. Três meses depois, acabou se mudando para a cidade de forma definitiva, pois na fazenda ainda não havia escola e o filho precisava estudar.

“Na fazenda, até hoje, eu sou tipo um ‘serviço gerais’, faço tudo o que precisa ser feito, cubro a folga da cozinheira na cantina – aliás, os trabalhadores gostam muito da minha comida, ficam felizes quando eu vou -, faço serviço bancário, ajudo no escritório e no RH”

Em 2014, quando Maria perdeu o marido em um acidente de carro, as coisas ficaram mais árduas, pois, apesar de os filhos já serem adultos, ela teve que assumir as funções de mãe e pai. Mesmo assim, não abriu mão do trabalho na fazenda e continuou fazendo tudo o que era necessário.

“Eu só não opero uma colheitadeira, mas meus filhos sim, eles fazem de tudo. Do jeito que eu e meu marido fomos criados, para fazer qualquer serviço, nós educamos nossos filhos. Aqui não existe essa coisa de ficar só no escritório ou comandar uma área, todos nós fazemos de tudo”, explica.

 

Lado social

Além de todas as coisas já faz em casa e na fazenda, Maria ajuda na gestão, participando das decisões que permitam a escola, que foi construída na propriedade pelo marido, a se tornar referência no município, e que era, como ela mesma diz, a “menina dos olhos dele”. A Escola José Gaburgio, nome dado em homenagem ao sogro de Maria, foi erguida em parceria com a prefeitura de Campo Verde, a partir da doação de um pedaço do terreno da fazenda. A ideia era ajudar os filhos de fazendeiros da região e dos trabalhadores, já que isso facilitava a ida deles ao trabalho e ainda garantia o estudo de suas crianças. Atualmente, os filhos dos trabalhadores formam a maioria dos alunos do estabelecimento de ensino.

A história de Maria com ações sociais dura mais de 40 anos. Ela diz que sempre teve o desejo de ajudar outras pessoas, que isso faz parte de quem ela é. “Já fui convidada várias vezes para me candidatar a um cargo político, mas eu não quero. Eu faço as coisas por amor”, explica.

 

Apae

Mesmo com uma vida atarefada com funções domésticas, família e fazendas, Maria consegue tempo para servir como voluntária na Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). Ela foi membro do conselho da instituição por seis anos consecutivos, cinco deles como presidente, cargo para o qual foi eleita e reeleita.

 

Quando assumiu as atividades na instituição, em 2011, o local estava sob interdição judicial, por problemas anteriores à gestão dela. “Com um ano de trabalho nosso, da equipe que assumiu para cuidar da entidade, nós conseguimos sair da interdição judicial. No ano seguinte, fui eleita presidente. Hoje, temos uma Apae que é referência, é nova, bem estruturada, atende mais de cem alunos”.

Tanta dedicação com o próximo não poderia deixar de ser reconhecida. Maria recebeu duas premiações no programa Semeando o Bem, do Instituto Algodão Social, um pelo trabalho que desenvolve na escola da fazenda, e outro por sua atuação na Apae, onde ainda participa como membro voluntário, ajudando, como costume, em tudo o que está a seu alcance.

 

Gestora

Apesar de tudo o que conquistou, faltava algo: cursar uma faculdade, o que não teve a oportunidade de fazer quando era mais jovem. “Eu sempre tive vontade de estudar, mas não era possível porque precisava trabalhar. Aí, em 2011, quase com 60 anos, me formei em administração de empresas. Depois cursei pós-graduação em gestão de pessoas e em saúde pública com ênfase na família”

A história de vida de Maria só não é mais rica porque ainda quer fazer mais. À frente das fazendas, cuida de todos os setores e acredita muito na força feminina comando de fazendas. “Eu acho que foi um avanço de suma importância, porque a mulher, já há algum tempo, não se satisfaz em ficar apenas organizando a casa. Eu acho até que o fato de elas terem um papel profissional melhorou muitos casamentos”.

 

Sou de Algodão

Seu cunhado Milton Gaburgio é vice-presidente da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), criadora do movimento que fomenta o uso da fibra na moda. Por conta disso, Maria conhece bem a importância da iniciativa e a vê como fundamental para o aumento do cultivo da pluma em território nacional. “Achei uma coisa muito interessante. Avalio como uma das melhores atitudes que aconteceram no setor. Porque se temos a matéria-prima aqui, acho fundamental que se incentive cada vez o uso do algodão brasileiro”.