O desfile no SPFW marca o início da parceria com o Movimento Sou de Algodão

João Pimenta sonhou e mirou alto: deixou de lado o trabalho de lavrador no interior de Minas Gerais e se transformou em um dos maiores nomes da moda contemporânea, pioneiro na estética genderless por aqui.

Agora, com o visual sem gênero já estabelecido, ele se volta para as particularidades de cada um: “O genderless já chegou até à novela, achei que seria legal voltar a falar sobre mulheres femininas e homens bem masculinos”, explica ele, que faz seu segundo desfile feminino no SPFW, neste mês, em parceria com o Movimento Sou de Algodão, e conta o que vem por aí, nesta entrevista:

 

Você vai apresentar sua segunda coleção feminina no SPFW. Como tem sido criar para mulheres depois de tanto tempo dedicado à moda masculina?

Meu primeiro desfile na Casa de Criadores, no começo da minha carreira, foi feminino. Mas, na época, tinha uma loja da Mourato Coelho, em SP, e percebi que os meninos entravam lá procurando coisas para comprar, vi que tinha espaço, demanda por uma moda masculina menos clichê. Na segunda coleção, migrei para o masculino, sem abandonar totalmente essa mulher, pois sempre olhei muito para modelagem feminina. Conclusão? Meu masculino acabava servindo também para essas mulheres maiores, que não estavam sendo contempladas pelo mercado brasileiro, em geral, um mercado que faz roupas apenas para mulheres muito magras. Funcionou por muito tempo, até eu ter vontade de trabalhar mais a silhueta, colocar mais busto, cintura, uma modelagem mais angulosa, e resolver então fazer coleções separadas. Fiquei muito feliz com a receptividade, não esperava que tantas mulheres viessem à loja de cara, e fiquei bem empolgado para continuar essa história com elas.

 

Essa coleção também marca a parceria com o Movimento Sou de Algodão, certo? Como você vê esse movimento?

Há muito tempo atrás, quando eles fizeram a primeira ação no SPFW, eu recebi uma caixa muito bonita, com alguns produtos, mas não sabia exatamente o que o movimento era. Na última Casa de Criadores, pude ver a iniciativa e entender melhor a proposta deles. Por coincidência, o Paulo Borges me procurou e disse que gostaria de fazer uma parceria com o Movimento. Me propus então a criar uma coleção 100% de algodão, com uma fibra só, coisa que nunca tinha feito, ou seja, foi um desafio, porque sempre trabalho com muitos fios. Quis quebrar também um tabu, porque as mulheres brasileiras não consomem muito algodão, a não ser na camisa, no jeans, porque elas ainda acham que demora a secar, que amassa. Roupa amassada é chique! Toda fibra natural amassa, vide o tafetá de seda, o linho…

 

Quantos looks serão mostrados no desfile e de onde vem sua inspiração para essa coleção?

Trinta. Imaginei uma índia urbana, fiz um mix entre Amazônia, seringueiros e cidades grandes – em algumas peças, o látex vai em cima do algodão, criando um tecido emborrachado. Trabalhei um tribal nas sarjas também, em uma espécie de Chevron – recortei e emendei todos os tecidos antes de cortar as peças, então, temos várias faixas que não se encontram, que criam um grafismo no trabalho inteiro, em tons de rosa com preto, marrom com verde e azul. Além de agregar valor a uma matéria simples como a sarja, isso gerou outra coisa bacana: pela primeira vez, usamos 100% do tecido, não teve descarte. É complicado se renovar depois de tanto tempo, e esse trabalho me proporcionou isso.

 

Você também trabalhou com a Cooperativa Bordana, certo? Já conhecia o trabalho delas? Como tem sido essa troca?

Eu não conhecia, mas me encantei. Elas estão bordando quatro peças para o desfile: dois vestidos, uma camisa e um blazer. São peças bem ricas porque são de patchwork, desse Chevron que criamos, e ganham ainda bordados por cima. A primeira inspiração que tive ao ver o trabalho delas foi bordar o próprio algodão, a pluma mesmo, com o caule marrom e as flores brancas. Tudo é totalmente feito à mão, bem ateliê mesmo.

 

Em quais tendências você aposta para a próxima estação?

Eu não olhava muito para tendências, mas hoje até para estar conectado com as linguagens, para poder criar algo mais globalizado, tenho visto tudo e captado algumas influências. Uma das coisas que vi e estou apostando é a mistura do romântico com o sexy, a volta do babado, dos godês, das saias amplas, mas com uma pegada mais sexy. Vamos ter até saia sereia na passarela, e também muita camisaria, da Cataguases e Canatiba, que estou explorando em vários looks.

 

Em termos de formas e peças-chave, quais serão os destaques?

A modelagem trapézio, a linha A. Estou de olho na mulher que não é modelo e essa modelagem veste bem qualquer mulher, tenha ela mais quadril ou não. Uma saia godê ou linha A e camisas masculinas são as peças-chave da minha coleção.

 

Como funciona o seu processo criativo? 

Tenho sempre tentado buscar contrapontos entre o simples e o rico, o masculino e o feminino, com uma coisa puxando à outra. Quando termino uma coleção, vou andando pela linha de raciocínio que me levou a ela e evoluindo a ideia. Busco muitas referências no dia a dia mesmo e na minha história, nas histórias da minha família, que são muito simples, da roça, que acabam sendo um contraponto à ideia elitista da moda. Tem Brasil dentro das minhas coleções.

 

Você começou a trabalhar nas Casas Pernambucanas e se tornou um dos estilistas mais bem-conceituados da sua geração. Como enxerga a moda hoje? E essa visão mudou ao longo do tempo?

Antes, as pessoas queriam participar de um grupo, hoje elas querem ser mais individuais, cada um está se libertando, vestindo o que quer. Estamos em um momento legal. Desde 2009 falamos do genderless e agora chegou até à novela, por exemplo. Daqui a pouco vai assentar essa questão do gênero e vamos acabar voltando para a mulher mais feminina e o homem mais masculino. E, pessoalmente, me sinto um pouquinho mais seguro. A autoestima demorou para vir. Não acreditava no meu trabalho antes, agora acho que mesmo quando algo não dá certo, está bom, é aprendizado. A moda ficou mais fácil para mim de 1995 para cá (risos). É uma paixão, o sentido da minha vida.

 

 

Neste desfile que dá início à parceria com Sou de Algodão, João Pimenta trabalha com o apoio de diversas marcas parceiras do movimento: Bordana, Canatiba, Cataguases, Cedro Têxtil, ITM Têxtil, Norfil, Santanense, Trecê Brasil, Urbano Têxtil e Vicunha.