O Dia Internacional do Trabalho data de 1889, quando a Conferência Internacional Socialista instituiu o 1º de maio referência de lembrança e homenagem a uma grande manifestação por direitos trabalhistas e, sobretudo, pela diminuição da jornada, de 13 para oito horas diárias ocorrida em Chicago, nos Estados Unidos, em 1886, e que ficou conhecida como a Revolta de Haymarket.

No Brasil, a classe trabalhadora começou a se organizar muito depois, e por influência dos imigrantes europeus, que já traziam histórias de lutas em sua bagagem. Em 1917, o país já demonstrava insatisfação com a falta de direitos trabalhistas, quando aconteceu uma importante greve geral que atingiu indústria e comércio. Mas foi mesmo em 1924 que o dia 1º de maio foi decretado feriado nacional no país, pelo então presidente Artur Bernardes (1922-1926).

Entre ter uma data de celebração e uma lei específica, foram mais 19 anos. A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) nasceu em 1943, durante o Estado Novo (1937-1945), quando o Brasil estava sob a batuta de Getúlio Vargas. Demorou, mas saiu.

E é uma conquista que alcança os mais diversos segmentos da economia. O setor algodoeiro, é um deles, e está sempre se mobilizando em prol das melhorias do trabalho no campo e na indústria, a fim de alinhar produção com o pilar social, garantindo direitos e oferecendo métodos sustentáveis.

 

Abrapa

A Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) lista alguns preceitos legais que cercam o setor, como o emprego da CLT, alinhamentos com as convenções definidas pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) e o uso da Norma Regulamentadora 31 – que tem por finalidade guiar patrões e funcionários no que diz respeito à segurança e saúde ocupacional na agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e aquicultura.

“A Abrapa coordena, em parceria com associações estaduais, um programa de certificação socioambiental, cujo protocolo possui 237 condicionantes, dentre as quais a maioria contempla as relações trabalhistas entre funcionários e as fazendas produtoras de algodão”, explica Márcio Portocarrero, diretor-executivo da associação. É o programa ABR – Algodão Brasileiro Responsável.

E como isso funciona? Aos produtores, interessa ter as certificações, aos trabalhadores, os meios justos. A contrapartida de um é o benefício do outro, ou seja, para que as fazendas recebam essas chancelas, é imprescindível que caminhem dentro do pilar social, ou seja, que atuem de acordo com os preceitos do programa.

“A partir da visita que as equipes fazem nas fazendas, o produtor tem de atingir uma graduação mínima de 85% de conformidade com as exigências. Depois, a cada ano, é preciso subir dois pontos percentuais, até chegar a 90%, quando deve manter o patamar”, explica Portocarrero.

O resultado da atuação eficiente das associações do setor algodoeiro, em andamento desde 2009, não poderia ser mais significativo. Atualmente, o Brasil é líder mundial na produção de algodão certificado (30% da produção), caminhando com a tendência dos consumidores, sempre mais preocupados em consumir de forma responsável e sustentável.

“Com a nossa presença no mercado internacional – onde o Brasil é o quinto maior produtor e o quarto maior exportador de algodão do mundo – e com essa marca de líder na produção certificada, conquistamos os melhores mercados mundiais”, afirma.

Além de representar uma vantagem competitiva, as certificações não agregam custo aos produtores, comparado fazendas que não têm essas chancelas. E, como resultado, ao seguir o protocolo do programa ABR, com trabalhadores mais motivados, a produtividade da fazenda é ampliada. Os benefícios oferecidos ao colaborador, como assistência médica, educação para os filhos, lazer e alimentação são grandes influenciadores de sua satisfação. É como um ciclo de benefícios, a produtividade aumenta à medida que o funcionário se sente respeitado e tem seus diretos garantidos. “Percebe-se um entusiasmo muito grande do trabalhador. O filho dele está na creche, no fim do dia ele conta com uma área de lazer, a fazenda promove integração das pessoas, o bem-estar e a saúde. Entre todas as cadeias produtivas do Brasil, o algodão é a única que tem um projeto desse nível implantado e em funcionamento”, acrescenta.

 

Abit

Outra entidade que acompanha e auxilia de perto o pilar social do algodão é a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), que tem como missão promover o desenvolvimento nacional das indústrias têxtil e de confecção, defender seus interesses em todos os fóruns, ajudar pessoas e empresas a realizarem todo o seu potencial e preservar o equilíbrio financeiro que lhes permita conduzir de forma adequada as suas ações.

O programa do Algodão Brasileiro Responsável (ABR), por exemplo, nasceu de um trabalho conjunto entre a Abit e o Instituto Algodão Social, do Mato Grosso, estendendo-se posteriormente a toda a cotonicultura nacional. “O Brasil tem 70% de sua produção licenciada na BCI ou no ABR”, afirmaorgulhoso Fernando Valente Pimentel, presidente do conselho de administração da Abit. “É claro que essa questão da sustentabilidade, que está na lavoura, se agrega aos elos subsequentes, aos tecidos e às confecções, construindo todo um processo de imagem positiva e verdadeira da indústria nacional”.

Aliás, a respeito dos passos que o Brasil deu no campo da sustentabilidade, para ele é um caminho sem volta, irreversível. E assim tem que ser. “O Brasil tem marcos regulatórios extremamente relevantes em todos os aspectos trabalhistas, previdenciários, ambientais, muito mais que a maior parte dos países do mundo”, completa.

Essas conquistas geraram crescimento e aumentaram as possibilidades de o colaborador, com os benefícios recebidos, poder estudar, se desenvolver e, até, partir para o empreendedorismo. “Existem várias formas de trabalho, entre elas a de carteira assinada, e também inúmeros empreendedores individuais. É preciso desmistificar isso. O mundo profissional está ganhando contornos diferentes, a tecnologia está propiciando essa evolução”, explica Pimentel.

Atualmente, o Brasil tem 33 milhões de pessoas com carteiras assinadas e 27 milhões de empreendedores individuais. “O que eu posso dizer sobre o setor têxtil é: trabalhar sem carteira? Não. Essa é a agenda da sustentabilidade. É o que a Abit promove, e faz com outros parceiros: fortalecer as melhores práticas”, argumenta.

 

Entre as ações priorizadas pela Abit para o desenvolvimento sustentável da indústria têxtil, estão a igualdade de gênero, o trabalho decente e o crescimento econômico; inovação e infraestrutura; consumo e produção responsáveis e, por fim, parcerias e meios de implementação. Tudo isso está dentro dos 17 ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Na próxima semana, a entidade vai apresentar num plano piloto, para depois expandir, um programa de fortalecimento de têxteis e confeccionados, que aborda a humanização, isto é, a capacidade de realizar coisas através das pessoas. “Eu não estou falando de normas legais, pois essas, todos têm que seguir, estou me referindo a como aumentar o comprometimento, como elevar o nível de satisfação”, diz Pimentel. O que isto significa? Ter trabalhadores mais motivados e reter talentos. O setor têxtil emprega 1,5 milhões de pessoas, diretamente, em mais de 30 mil empresas com cinco ou mais funcionários. 75% da mão de obra é feminina, e, para cuidar dos interesses dessas trabalhadoras, a Abit tem um comitê de mulheres empreendedoras que aborda livremente os temas que considera adequados.

Além da satisfação do colaborador, a Abit se preocupa com a constante mudança da indústria e com a capacitação do profissional, e considera que esse pensamento deva estar entre os objetivos dos empregadores. “Qualificação é a chave de tudo” diz Pimentel, e continua: “O que nós precisamos melhorar também é a estrutura do próprio trabalho para fortalecer a visão da capacitação, do treinamento, e redução do giro de mão de obra. Isso deve ser feito com um programa de retenção de talentos”, explica.

 

Abvtex

Seguindo a mesma linha, a Abvtex (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), atua de forma presente, entre outras coisas, para verificar as condições de trabalho na indústria da confecção, combatendo a atividade análoga ao escravo e o infantil, o desenvolvimento da cadeia produtiva, ciclos de capacitação, a própria estrutura das fábricas, questões de saúde e segurança, além da informalidade, que vai contra todas as grandes conquistas dos trabalhadores. Eles reúnem os mais representativos grupos nacionais e internacionais de varejo de moda (vestuário, calçados, bolsas, acessórios, além de cama, mesa e banho) e um importante canal de comunicação entre funcionários, empregadores e governo.

“Nós temos um programa Abvtex, que é uma iniciativa criada em 2010, que basicamente é um compromisso de seus signatários em se submeter a auditorias, assim como as empresas que fornecem para eles. Preparamos protocolos sobre a regularização da atividade, dos direitos do trabalhador, como legalização, segurança, saúde etc. Existe uma auditoria que é feita uma vez por ano, e eles precisam preencher 70 dos requisitos exigidos”, explica Edmundo Lima, diretor-executivo da entidade.

Todo esse controle da associação garante, a empregadores e empregados, resultados por meio de regras de “compliance” e princípios de governança corporativa que devem fazer parte do dia a dia de qualquer negócio.

“O resultado do programa é bastante significativo. Após as auditorias físicas, em campo, nós fechamos o mês de março de 2018 com 3.941 empresas certificadas, isso quer dizer que elas foram aprovadas dentro do programa. Isso representa um universo de cerca de 317 mil colaboradores envolvidos”, relata. “As conquistas são essa grande integração de todos os elos em prol do trabalho digno na cadeia de valor da moda”, completa.

Um movimento que une todos os agentes da cadeia do algodão

Em resumo, uma economia forte estabelece caminhos que geram empregos. E associações criam mecanismos que ajudam a tornar mais justas as relações empregador-empregado. Mas o mundo ideal é a união desses dois pontos a planos sustentáveis. Esse é o objetivo do movimento Sou de Algodão, da Abrapa, que incentiva o uso da fibra na moda. Fomentar o uso de uma matéria-prima que já responde por 30% da produção mundial, como o algodão brasileiro certificado, é apostar grande no potencial desse mercado, na criação de empregos que envolve toda a cadeia produtiva e na importância do trabalho do pequeno e médio agricultor.

“Acho um movimento legítimo, importante. O algodão tem muita representatividade nas indústrias têxtil e de confecção do Brasil. É a principal matéria-prima processada a partir de sua base dentro do país, é uma fibra muito especial”, diz Pimentel. Para ele, o Brasil tem condição de ser um grande produtor de têxteis e confeccionados com misturas compostas majoritariamente por algodão, “já que temos uma alta produtividade, uma cotonicultura de excelente qualidade, e isso nos dá uma vantagem concorrencial que, atrelada a questões de sustentabilidade, passam desde a matéria-prima até o produto final, e vão criando uma marca Brasil que poderá mais à frente se destacar no mercado nacional, obviamente, e no mercado mundial”.