Em sua 2ª edição, a semana de moda sustentável cresce e ganha os holofotes com desfiles politizados, oficinas e workshops

Teve aula de confecção de roupas para bonecas a partir de retalhos têxteis, área dedicada a marcas e coletivos que agem na preservação da Amazônia, couro de fato ecológico – não derivado de petróleo, mas, sim, sintetizado por bactérias – e desfiles que mostraram não só o design fresco e ecologicamente correto que a moda sustentável tem pregado, como também apresentações politizadas, que tomaram conta do feed de muita gente: a Think Blue mostrou seu posicionamento político, a Jouer Couture distribuiu livros à plateia, e a Comas trouxe panfletos críticos à mídia.

Maior evento de moda e sustentabilidade da América Latina, a Brasil Eco Fashion Week (BEFW), idealizada por Rafael Morais e Fernanda Simon, do Fashion Revolution Brasil, chega à 2a edição maior e melhor: teve curadoria da Mostra de Moda e Design Sustentáveis feita pelo Instituto Rio Moda e um número de participantes em franca expansão: só no showroom foram 50 marcas de vestuário, calçados e acessórios, a exemplo das já pops Vert (até Meghan Markle já foi flagrada com os tênis da marca franco-brasileira) e Insecta Shoes (premiada no Ecoera).

A seguir, o diretor do Instituto Rio Moda e curador da BEFW, Roberto Meireles, faz um balanço da semana a pedido do Sou de Algodão. Confira:

Como surgiu a ideia de criar uma semana de moda sustentável e como ela se conecta ao Rio Moda?
Segundo a McKinsey & Company, o compromisso com a sustentabilidade é uma das 10 principais tendências para 2018 e estará no centro da inovação no setor da moda. Em sua segunda edição, a BEFW segue com o propósito de fomentar o cenário brasileiro da moda sustentável, gerar negócios, inspirar o público, apontar alternativas em prol da moda consciente e entrar para o calendário global de semanas de moda. Tenho acompanhado as trajetórias profissionais dos organizadores do evento há anos e, desta vez, o Instituto Rio Moda foi responsável pela curadoria da Mostra de Moda e Design Sustentáveis, parte da programação da BEFW.

E quais foram os destaques da Mostra? Como foi feita a seleção dos participantes?

Fizemos um edital com critérios bem objetivos para avaliar os trabalhos, composto por quesitos pontuáveis, com diferentes pesos – o que torna o processo bem mais lógico e produz um resultado bastante defensável. Pra mim, os destaques ficaram por conta da Comas SP (autora do Oriklini, espécie de top/biquíni feito a partir de resíduos têxteis da indústria de confecção, mais especificamente da borda lateral do rolo de tecido plano de camisaria) e da Cirkla Modo (que desenvolveu uma minicoleção 100% de celulose).

 

A BEFW é mais que uma semana de moda, porque une showroom, debates e exposições, além de desfile. É um evento 360 para toda cadeia?
Sim, eu acredito que 360 é uma boa imagem para o que vem acontecendo na BEFW, já que espaços paralelos conciliaram atividades comerciais em atacado e varejo, entretenimento, networking e muita troca de conhecimento e experiências por meio das palestras, talks e workshops. Com programação intensa ao longo dos três dias (a semana aconteceu no Unibes Cultural, em SP, entre 15 e 17/11), os participantes se revezaram entre sete diferentes áreas: Conhecimento, Amazônia, Economia, Interativo, 2º Mostra de Moda e Design Sustentáveis, Showroom e Desfiles.

Você já acompanhava o trabalho dos designers que participaram do showroom e dos desfiles? Algum te surpreendeu?
Há anos acompanho o trabalho da Natural Cotton Colors, Vert, Ahlma, Insecta Shoes, Comas SP, Movin, Grama, Pano Social, Mescla, Think Blue e outros. Eu não diria que eu me surpreendi, mas fiquei muito feliz de ver que o padrão de acabamento e o apuro estético têm se aprimorado bastante, isso sem falar da lógica e do encadeamento das coleções. Tudo está ficando, a cada ano, mais profissional.

Muitos desfiles acabaram tendo mensagens políticas também. Na sua opinião, os designers que trabalham com sustentabilidade são mais ligados em questões contemporâneas, de maneira geral? São mais politizados?
Definitivamente eu não arriscaria este tipo de generalização. Acredito que o brasileiro de um modo geral está ficando mais politizado e consciente.

O Brasil é um dos maiores produtores de algodão sustentável, mas essa ainda é uma matéria-prima pouco vista nas passarelas. Foi diferente no BEFW?
Sim, foi diferente. Havia muito algodão, inclusive o orgânico, conciliado com matérias primas oriundas de processos de reuso e upcycling. Mas também havia diversas variações de seda, linho, denim e outros.

Outra ideia errônea, antiga, é a de que moda sustentável não teria design, seria uma coisa mais hippie. O evento ajudou a desmistificar isso? O que você destacaria em termos de tendências?
Essa estória de dizer que moda sustentável seria uma coisa mais hippie só pode ser coisa de quem não tem se conectado minimamente com o que está acontecendo. Cada um com seu estilo, as coleções apresentadas no BEFW têm se sofisticado muito.

Vários espaços foram montados, com temas que passavam por economia e Amazônia. Quais foram os destaques de cada um?
Muita coisa boa aconteceu no evento e não havia como participar de tudo, já que as atividades corriam de forma paralela, mas eu destacaria as oficinas Re-roupa, com Gabi Mazepa, e de moda inclusiva, com Daniela Auler; o Workshop Mini Pocket, com Agustina Comas; os talkshows sobre movimentos da moda sustentável no Rio de Janeiro, certificações para sustentabilidade, Trama Afetiva (Fundação Hermann Hering) e Indústria e Sustentabilidade; e as palestras sobre Mulheres na Moda, com Marina Colerato, Metodologia de Inovação pra Moda, com Renan Serrano, e Sustentabilidade e Pequenos Negócios, com Juliana Borges.

Sustentabilidade é um nicho de mercado que tende a crescer? Como fazer o consumidor entender o valor agregado em uma época de crise econômica?

Sustentabilidade já não é mais um nicho de mercado. É sim, cada vez, mais mainstream. E não é o consumidor quem tem que entender o valor agregado pela moda sustentável. É a indústria que deve entender como o consumidor se posiciona em relação à sustentabilidade, para poder atende-lo cada vez melhor.

Link com fotos: https://www.luismorasfotografiamodaepublicidade.com/befw